quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Por uma Teologia menos medrosa

Os números não mentem, mas por vezes, enganam. O Brasil, que até a década de 80 tinha mais de 81% da sua população católica, viveu nos últimos 30 anos uma transformação cultural sem paralelo em nenhuma outra nação do mundo moderno. O IBGE aponta que os evangélicos de todas as confissões, saltaram de 15,4% da população em 2000, para 22,2% em 2010. Em números totais, passamos de 26 milhões para 42 milhões, numa população de 200 milhões de habitantes. E as principais responsáveis por esta expansão do protestantismo brasileiro, tem sido as igrejas pentecostais (Assembleia de Deus,Igreja Quadrangular, Brasil para Cristo, etc) e as neopentecostais (Universal, Internacional da Graça, Mundial, etc). No entanto, este crescimento vem acompanhado de um paradoxo: por um lado, igrejas vibrantes e em expansão, e por outro, formação deficiente e em declínio, tanto na liderança como no discipulado cristão. Na denominação a que pertenço (Igreja do Evangelho Quadrangular), que tem uma cultura muito consistente de acompanhamento e coleta dedados, há um que considero preocupante: na década de 80, quando o número de evangélicos era bem menor, cerca de 20% dos membros da igreja eram assíduos freqüentadores da Escola Bíblica, valioso instrumento de discipulado cristão. Atualmente, a média não ultrapassa os 8%. E no que diz respeito à formação da liderança, a situação ganha contornos mais graves, já que a Teologia – Ciência de Estudos da Fé e da Religião – É,provavelmente, a ciência menos prestigiada do mundo acadêmico. Tanto assim é que pastores que buscam prestígio no mundo secular, tem certa vergonha de dizer que são formados apenas emTeologia (quando são), e buscam a Sociologia, Filosofia ou Psicologia. As próprias discussões teológicas da atualidade são mais sujeitas a filósofos seculares – Marx, Nietsche e Freud – do que a teólogos de fato. Precisamos, cada vez mais, de Teologia, com “t” maiúsculo. Porque a Teologia, em termos de reflexão sobre a condição humana, é tão rica em material e contribuição quanto a Psicologia e outros ramos de conhecimento. Agostinho de Hipona, Tomás de Aquino, Theodor Beza, Schleiermacher, sem falar nos inevitáveis Lutero, Calvino e Armínio – tem muito a dizer sobre o ser humano de hoje, e isso é material teológico, não de psicanálise ou filosofia. Além disso, a Teologia precisa afirmar suas convicções com clareza. Hoje em dia, apesar de os ramos do Protestantismo brasileiro que mais crescem serem os pentecostais – de tradição arminiana – cada vez mais os institutos e seminários destas igrejas são invadidos por literatura claramente calvinista. Há bem pouco tempo, quem quisesse ser professor no ITQ – Instituto Teológico Quadrangular – deveria entregar à supervisão pedagógica uma resenha da obra “Crer é Também Pensar”, de John Stott. Excelente obra, diga-se de passagem, mas toda ela eivada de um pensamento calvinista roxo. E outros autores como John Piper, D.A. Carson, são lidos nos seminários pentecostais sem maiores questionamentos. Um crescimento robusto da igreja brasileira, deve passar pelo surgimento de pesquisadores corajosos, cristãos que ingressem com firmeza e curiosidade investigativa no meio acadêmico, para produzir - e não somente reproduzir – conhecimento. Enfim, uma Teologia que não tenha medo de dizer seu nome, e afirmar com clareza a que veio, pode ser o tipo de contribuição que a sociedade brasileira anseia dessa igreja que cresce, sem dizer exatamente que valores, que legado, quer deixar na estrutura de pensamento da nossa nação e nosso povo.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

A Juíza e a Bandeira Gay - ou "Lei também é Tradição"

Dias atrás, o jornal “Diário de Santa Maria” publicou o artigo “Tradição não é Lei”, da jornalista e professora universitária Luciana Carvalho, sobre a polêmica em torno de uma cerimônia de casamento coletivo, com um casal homossexual, em um CTG de Livramento. O ponto alto da polêmica foi um incêndio criminoso no CTG que, ao fim e ao cabo, é uma entidade privada, e deve satisfações somente a seus associados sobre os eventos que concorda em sediar. Mas a polêmica segue “acesa”, e creio que o artigo da professora – com quem já trabalhei no movimento cultural da terra de que ambos somos filhos, São Gabriel – é um convite ao bom debate, especialmente sobre o funcionamento do Estado Democrático de Direito. Após o incêndio, a jovem juíza Carine Labres se deixou fotografar algumas vezes com a bandeira LGBT. Fico cá a pensar uma hipótese: o que faria a imprensa se um magistrado, após determinar a reintegração de posse de uma fazenda invadida, mostrasse aos fotógrafos a bandeira da Farsul? Ou, se preferirem, a do MST? É correto uma magistrada sair por aí com a bandeira de um movimento político, e marcadamente ideológico? É decente uma juíza desfraldar outra bandeira que não a da Constituição? “Tradição não é Lei”, diz a professora Luciana Carvalho. Mas as leis emanam, sim, das tradições e da cultura de um povo, e são por ela respaldadas. Toda vez que uma legislação dita “avançada” quer impor, à fórceps, a sua interpretação da lei, apelando à força e ao constrangimento moral, este é um claro sinal que falta à lei o respaldo do pensamento coletivo. E isto é ainda mais verdadeiro quando, na pretendida equiparação civil, o que se tem nem mesmo é uma lei – mas uma interpretação do Conselho Nacional de Justiça e do Supremo Tribunal, que atropelaram a função legislativa do Congresso e o próprio sentido do artigo 226 da Constituição, que reconhece como entidade familiar ‘a união estável entre homem e mulher’. Numa situação bem brasileira, resolveu-se que o que está escrito não vale – e desde então, a confusão está estabelecida. É preciso discutir estas questões? Sem dúvida. Mas sem simplificações grosseiras ou espetáculos midiáticos. Se a meritíssima juíza deseja militar por estas causas, que abandone o cômodo salário vitalício e vá disputar uma cadeira no Legislativo, o verdadeiro lugar para se discutir mudanças de costumes - não num Tribunal, que deve julgar em conformidade com as leis...e a tradição, também.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

O Papa, os Evangélicos e a Forca de Anchieta

As câmeras de todo o mundo tinham suas lentes voltadas para Roma, quando o cardeal Jean-Marie Touran assomou à varanda central da Basílica de São Pedro em 13 de março do ano passado, e pronunciou a milenar fórmula do “Habemus Papam”, proclamando a eleição do primeiro pontífice latino-americano da história da Igreja Católica Romana. A notícia foi recebida com entusiasmo e esperança até mesmo fora dos muros católicos. Líderes de diversas igrejas cristãs da Argentina davam testemunho a respeito de Juan Mario Bergoglio, então cardeal de Buenos Aires, como um amigo dos evangélicos, homem de diálogo e apoiador de mobilizações conjuntas em defesa de pontos de vista comuns, como o combate ao aborto e a promoção da família. De fato, os primeiros movimentos do novo pontífice romano pareciam apontar na direção de uma relação mais amistosa com os evangélicos que a de seu antecessor, Bento XVI, que numa de suas homilias chegou a agredir as igrejas pentecostais, a quem acusou de promover um cristianismo com “pouca densidade institucional e bagagem racional”. Francisco, ao contrário, recebeu líderes de outras igrejas cristãs, como o arcebispo anglicano Justin Welby, o patriarca ortodoxo de Constantinopla Bartolomeu I, e o pastor pentecostal Tony Palmer, entre outros, e chegou a gravar uma mensagem em vídeo para as igrejas pentecostais, definindo a divisão entre os cristãos como um pecado. Mas estes movimentos, normais na retórica dos papas desde João XXIII, precisam ser comparados com as atitudes internas da Igreja Católica. E neste particular, surgem alguns paradoxos, como no anúncio recente da canonização do frei português José de Anchieta, pioneiro do processo de catequização católica do Brasil. A cultura popular brasileira costuma olhar com benevolência a figura de José de Anchieta, tido entre os católicos como “o Apóstolo do Brasil”, e considerado um dos expoentes do Quinhentismo, período do nascimento da Literatura Brasileira. Poucos sabem, no entanto, do papel desempenhado pelo agora São José de Anchieta na prisão e morte dos primeiros pastores protestantes a atuar no Brasil. Durante a “França Antártica”, colonização francesa do Rio de Janeiro que durou de 1555 a 1567, o vice-almirante francês Nicolás de Villegaignon autorizou, por sugestão do calvinista Gaspar de Coligny, que se solicitasse a João Calvino o envio de missionários. Os pastores Pierre Richier, Guilherme Chautier, Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil, Pierre Bourdon, André Lafon e Jacques Le Balleur, chegaram ao Brasil em 7 de março de 1557, celebrando, três dias depois, o primeiro culto protestante do Brasil (e das Américas, diga-se de passagem), com a leitura do Salmo 27;4: “Uma coisa pedi ao Senhor e a buscarei, que eu possa habitar todos os dias na Casa do Senhor e habitar no seu Santo Templo”. Os missionários atuaram com liberdade durante a ocupação francesa ao Rio de Janeiro, mas quando Villegaignon cedeu às pressões políticas dos jesuítas, foram condenados à morte. Jacques Le Balleur, também chamado João de Bolés, conseguiu fugir para o continente e vandeou até São Vicente, sendo poupado de ser devorado pelos índios por estar com um lívro, que os Tupinambás pensaram ser a tão esperada e prometida Bíblia, que era tida como um amuleto. Tratava-se, no entanto, de uma peça de Rabelais. Em São Vicente os jesuítas forçaram a Câmara Municipal a prendê-lo em 1559. Foi torturado para dar informações estratégicas do Forte Coligny. Levado a Salvador, onde Mem de Sá concordou em condená-lo por ser seguidor da fé protestante. Em 1567 foi levado ao Rio de Janeiro, onde seria executado, mas o carrasco recusou a matá-lo. E em 9 de fevereiro de 1558, o Padre José de Anchieta estrangulou-o. Evidentemente, historiadores católicos contestam esta afirmação, afirmando que o Tribunal de Inquisição funcionava ainda em Lisboa, e não no Brasil Colônia. Ocorre que Bolés não foi julgado pela Inquisição, e sim pelas autoridades locais, sob forte influência jesuítica. Quem tiver dúvidas a respeito, leia “História do Brasil”, volume 3, do historiador José Francisco da Rocha Pombo, ou “A Presença dos Reformados Franceses no Brasil Colonial” de Franklin Ferreira, ou qualquer outra obra séria sobre o Brasil-Colônia. Do ponto de vista da organização católica, faz todo sentido que Francisco, um papa jesuíta, canonize José de Anchieta. No entanto, para um pontífice que, até outro dia, anunciava o desejo de diálogo com os evangélicos, a decisão de canonizar um personagem controverso, que carrega na sua história o sangue de missionários protestantes, seguramente vai na contra-mão de suas propaladas intenções. Tenho respeito intelectual suficiente pelo papa para não acreditar que este fato tenha sido um equívoco, proveniente de qualquer tipo de desinformação. Até hoje, por razões semelhantes, o Vaticano tem evitado falar na canonização do Papa Pio XII, que mesmo não tendo matado ninguém diretamente, é acusado de silêncio complacente diante do nazismo de Adolph Hitler. Mas no caso de Anchieta, o estrangulamento de um pastor evangélico não pareceu chocar os príncipes da Igreja. Esta passagem sobre a vida de Anchieta é suficientemente conhecida pelos prelados católicos, a ponto de existirem obras que a contestam, o que permite supor que o Vaticano decidiu, solenemente, premiar o jesuíta Anchieta como um “bom soldado da Igreja”, não apenas disposto a morrer, mas também a matar por sua fé. Eis aí: por trás dos discursos sorridentes e promessas de “renovação” da Igreja Católica, numa simples e corriqueira canonização ressurge a velha Igreja Romana de sempre.

sábado, 2 de março de 2013

O anticristianismo militante do CFP. Ou: para onde vão as ordens profissionais?

Nestes tempos em que as liberdades civis e institucionais são correntemente desprezadas, tenho me perguntado para que servem, afinal, as ordens profissionais no Brasil. Para proteger os interesses de sua classe é que não é. Na maior parte dos casos, quando não é para o enriquecimento ilícito de seus dirigentes, tem se prestado ao puro e simples proselitismo político. Estamos agora diante de um caso absurdamente emblemático, que é a perseguição movida pelo Conselho Federal de Psicologia contra a psicóloga Marisa Lobo. O crime da psicóloga: afirmar, em alto e bom som, seus valores cristãos nas redes sociais. Anos atrás, o mesmo órgão, como se fosse uma espécie de Congregação do Santo Ofício, tentou impor “silêncio obsequioso” à psicóloga, sob o falso pretexto de que atendia homossexuais em busca de reorientação e de que agia como “pregadora” no consultório. Para o CFP, Marisa Lobo infringe a ética ao se apresentar como “psicóloga” e “cristã”. Mas o conselho age em favor do laicismo republicano, diriam alguns. O que estranha é que não há, nem de longe, o mesmo rigor contra uma série de profissionais que, em seus sites profissionais e perfis nas redes sociais, propõem uma abordagem da psicologia sob a ótica do Islã, da Umbanda, do Judaísmo, Budismo e tantas outras vertentes. Nada contra, mas por que apenas Marisa Lobo é intimada pelo CFP a excluir de seus perfis em redes sociais a menção de que é cristã? Por laicismo ou por anticristianismo militante? A resposta é simples: porque o CFP há muito deixou de ser uma entidade que zela pelo interesse de sua classe, servindo tão-somente para promoção de bandeiras casuísticas da esquerda no campo da psicologia. Quisera que este caso fosse a única distorção evidente da finalidade de uma ordem profissional, mas não é o caso. A OAB, tão presente na memória afetiva do país por suas lutas em favor da democracia e das eleições diretas, tem se omitido vergonhosamente em casos onde a liberdade de expressão é ameaçada, como no estranho silêncio diante das agressões sofridas pela blogueira Yoani Sanchez em sua passagem pelo Brasil. Silêncio, aliás, compartilhado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), que foi, na prática, condescendente contra as agressões a uma mulher armada apenas com sua palavra. De uns tempos pra cá, a Fenaj só se importa em querer impedir pessoas sem formação de exercer o jornalismo, para poder garantir a sobrevivência de seus cofres. Tal como a OAB com sua provinha para o exercício da advocacia, a Fenaj é apenas uma guilda para garantir reserva de mercado profissional. Nada além. Enquanto as ordens profissionais forem usadas apenas como correias de transmissão de um pensamento ideológico que abomina a liberdade individual de crença, dias perigosos virão.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Onde estava Deus?

“Não me conformo, não me conformo! Por que Deus levou meus amigos”? A pergunta, feita por uma jovem de 20 anos em seu perfil numa rede social da internet, expressa a mesma indagação que muitos silenciam na garganta desde a madrugada de 27 de janeiro, quando uma cortina de fumaça negra ceifou a vida de 232 jovens numa boate em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Vivendo em São Gabriel, cidade vizinha a Santa Maria que também enterrou oito vítimas fatais nesta tragédia, foi impossível ficar indiferente ao pesar que cobria a todos como um manto gigantesco, vendo famílias enterrarem seus filhos, seus mortos, seus sonhos. Num dos velórios que estive a pergunta de uma professora fulminava uma quase-acusação: “Onde estava Deus nessa hora, pastor?”. Se Deus é amor, porque o mal atinge as pessoas? Ou, dito de outra forma: Se o mal atinge a todos, justos ou injustos, crentes ou descrentes, para que serve Deus? Cabe, tão somente, atribuir o mal à própria espécie humana, ou mesmo ao diabo, se a fé cristã nos afirma que Deus tem todo o Poder? Diante da pergunta, muitos hesitaram, e decidiram concluir que Deus não existe. Outros religiosos, igualmente equivocados, desenvolveram a chamada Teologia do Processo ou Teísmo Aberto, que acredita que Deus não é Onipotente, e portanto, não tem responsabilidade nas tragédias. Ou seja, para fugir do horror de um Deus que permite o mal, criaram para si mesmos um Deus camarada, bondoso, mas incompetente. O Deus que emana da Bíblia é o criador de todas as coisas. “Eu sou o Alfa e o Ômega; o Primeiro e o Último; o Princípio e o Fim (Apocalipse 22;13)”. Então, teria Ele criado também o Mal? Agostinho de Hipona (354-430 d.C) ensina que, assim como a escuridão não existe como substância, e sim a ausência da luz, o Mal em si nada mais é do que a ausência do Bem, criado por Deus. Entretanto, isso não basta para quem perdeu seus filhos num incêndio. Num mundo onde a emoção tem substituído a fé como critério da verdade, querer afirmar a Bondade de Deus apesar da existência do mal, pode até soar ofensivo. Mas é em tais circunstâncias que a verdade precisa ser reafirmada. Penso que o mal surge em nossas vidas para colocar nossa consciência no devido lugar. Diante de tanto horror como vimos em Santa Maria, perdem sentido as disputas pessoais, a egolatria, as vaidades, as áreas vulneráveis de nossa vida. Surge, no caminhar silencioso dos que atravessam as ruas em silêncio e de mãos dadas, o afeto, a esperança. Corações que renovam a esperança, não se abatendo diante da perda daquilo que amamos nesta era decaída (2ª Coríntios 12;9). Em meio a tanto mal, Deus se revela no voluntário que ajuda no socorro, no bombeiro que arriscou a vida, no psicólogo que foi para a linha de frente consolar as famílias. Num dia, segundo crê a fé cristã, todo mal será extirpado. “Deus enxugará toda lágrima; não haverá mais morte, nem dor, nem pranto, pois a antiga ordem das coisas passará” (Apocalipse 23;4). Por ora, resta a certeza de que em cada esquina, Deus ainda nos surpreende com sua misteriosa Graça, no gesto solidário que demonstra que, apesar de tudo, a humanidade não é um projeto destinado ao fracasso. E sim, existe algo maior que a dor ou que qualquer sofrimento: o amor.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Ortodoxia e Pastoreio Feminino

Em novembro de 2012, um fato de profunda relevância teológica para o cristianismo do século XXI passou praticamente batido, tanto na mídia secular quanto na auto-proclamada mídia “evangélica”. A Igreja Anglicana da Inglaterra deliberou, em concílio, a continuidade da proibição da ordenação feminina para o episcopado. Na Igreja Anglicana, mulheres podem exercer a função de reverendas e diaconisas, mas lhes é interdita a ascensão ao bispado. O resultado desagradou o Arcebispo de Canterbury, Rowan Willians, e até mesmo o primeiro-ministro inglês David Cameron. Como já era previsto, a posição triunfante foi considerada uma vitória da “Ortodoxia”, uma vez que igrejas que pratiquem ou defendam a admissão de mulheres no ministério pastoral são consideradas “liberais” ou “heterodoxas”. Neste sentido, um enquadramento distorcido é tratado como verdade incontestável, e as igrejas evangélicas que consagram mulheres ao pastoreio, são tidas como “heterodoxas” sem que se lhes dê oportunidade de defesa. O termo “Ortodoxia” é resultante da junção dos vocábulos gregos “orthós” (reto) e “doxia” (opinião), com o sentido de “crença correta”, “opinião certa”. Ora, se os ortodoxos são os evangélicos que admitem apenas homens no pastoreio, a intenção da palavra deixa claro que as igrejas que admitem pastoras seriam “heterodoxas”, ou erradas mesmo. Mas, neste aspecto, com quem de fato estaria a “orthós”, a “retidão” do assunto? Sem pretensão de esgotar um assunto tão vasto, trago uma contribuição a este debate, dentro de uma cosmovisão pentecostal clássica – justamente o ambiente onde este tema é mais controverso. Em primeiro lugar, o “Pastor” do rebanho cristão só leva este nome por associação com a figura do pastor de rebanhos da Judéia. Deus, ao estabelecer sua Igreja, prometeu na sua palavra que supriria o povo com “pastores segundo o seu Coração”. E se o pastoreio de rebanhos de verdade é um modelo para o rebanho de Cristo, não deveria haver impedimento algum para que mulheres exercessem este ofício, já que na Bíblia, vemos vários exemplos de mulheres pastoreando rebanhos. "Enquanto Jacó ainda lhes falava, chegou Raquel com as ovelhas de seu pai; porque ela era pastora" (Gênesis 29.9). Assim como Raquel, também Lia, Zípora e outras mulheres exerciam o ofício de pastoras de rebanhos no Antigo Testamento. É ainda no Antigo Testamento que surgem o ministério profético de Débora e Miriã, a posição honrosa de Ester como rainha, e outras demonstrações de liderança feminina. Se no Antigo Testamento Deus não se incomoda com mulheres liderando, será que no Novo Testamento, justamente o ambiente em que a Graça irrompe na história humana, haveria um recuo? Esta tem sido a posição dos defensores mais empedernidos da exclusividade masculina do pastoreio, baseados em leituras descontextualizadas de 1ª Coríntios, e escorados no fato de os apóstolos originais serem todos homens. No entanto, é novamente a Bíblia quem nos apresenta mulheres exercendo função similar à dos apóstolos e evangelistas, como a profetisa Ana, filha de Fanuel (Lucas 2;36-38) e Júnias, que a Bíblia chama claramente de “apóstola”, tendo se convertido antes de Paulo de Tarso, que assim escreveu: “Saudai a Andrônico e a Júnias, meus parentes e meus companheiros de prisão, os quais são bem conceituados entre os apóstolos, e que estavam em Cristo antes de mim." (Romanos 16.7). Ao longo da história, igrejas históricas têm admitido mulheres no pastoreio, como a Igreja Luterana e a própria Igreja Anglicana, que nem de longe poderiam ser consideradas heterodoxas, antes tem se mantido fiéis à tradição reformada. E apesar de forte oposição de muitas das principais igrejas pentecostais ao pastoreio feminino, é justamente no seio pentecostal que uma igreja em particular – Igreja do Evangelho Quadrangular – viria a ser fundada por uma mulher, a missionária canadense Aimée Semple McPherson, que prega a mensagem pentecostal na Los Angeles dos anos 30, organizando uma igreja, uma estação de rádio e um instituto teológico numa época em que as mulheres nem sequer podiam votar. O Cristo a quem servimos, pela obra redentora da Cruz, desfez toda divisão e animosidade, concedendo também às mulheres liberdade para servir, adorar e – por que não? – liderar. Num mundo tão carente de lideranças confiáveis, se uma mulher sente-se chamada para servir a Deus através de seu dom de liderança, que se prepare para tal, e, em nome de Jesus, lidere! E siga firme, confiando na eficácia da Palavra ministrada por – lá vem ele outra vez – o apóstolo Paulo: Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus. (Gl 3, 27-28)

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Negritude e fé cristã: Um diálogo possível

Todo dia 20 de novembro é celebrado o Dia da Consciência Negra. Trata-se de uma celebração que rememora a morte de Zumbi dos Palmares, líder de um quilombo que lutou estoicamente contra as tropas pernambucanas até ser esmagado com violência no final do século 18. Em todo o país, seminários e mesas redondas são realizadas em escolas, com o propósito de educar para a tolerância e a igualdade. Não raramente, os alunos são apresentados a elementos da cultura afro-brasileira, como a culinária, expressões idiomáticas, e a religião – sempre e exclusivamente de raiz africana, como o Candomblé e a Umbanda. É aqui que temos uma situação que, além de criar um paradoxo do ponto de vista do Estado Democrático, comete também uma injustiça com muitos dos próprios negros. O Estatuto da Igualdade Racial, de autoria do senador gaúcho Paulo Paim, conferiu um status diferenciado às chamadas religiões de matriz africana, o que lhes franqueia um acesso privilegiado a espaços públicos, como escolas, universidades e órgãos vinculados ao tema da igualdade racial. Na prática, com o propósito de combater o preconceito, o Estatuto da Igualdade Racial cria um novo padrão de preconceito religioso, transformando o Candomblé e a Umbanda em religiões com proteção especial, o que fere o caráter laico do Estado Brasileiro – que ultimamente só é evocada para retirar crucifixos de tribunais e o nome de Deus das cédulas de Real. Evidentemente que a religião é um traço indissociável da cultura, e que a religião afro-brasileira é um dos elementos constitutivos da cultura trazida pelos africanos. No entanto, evocá-la como única religiosidade “negra” é desconhecer a pluralidade e criatividade religiosa da negritude brasileira, que tem contribuições em todas as confissões, inclusive na fé cristã. Nunca é demais lembrar que o próprio Zumbi dos Palmares, teve acesso à educação formal através de um padre católico e era um devoto praticante, e na história do catolicismo as irmandades religiosas de negros se contam às centenas. No protestantismo, a fé pentecostal é, como diz o título de uma obra do pastor e ativista Marcos Davi de Oliveira, a religião mais “negra” do Brasil, com mais de 8 milhões de negros que se declaram pentecostais. O vocabulário, a expressão social, praticamente tudo no pentecostalismo está carregado com tonalidades negras, ainda que boa parte do próprio segmento desconheça isso. Nem poderia ser diferente, para uma vertente do cristianismo que deve seu surgimento a um afro-americano chamado Willian Seymour, filho de ex-escravos que se tornou o pai do Avivamento da Rua Azusa, de onde emanaram igrejas como Assembleia de Deus, Igreja do Evangelho Quadrangular, Congregação Cristã e outras. A Bíblia Sagrada nos apresenta o profeta Amós revelando um Deus amoroso com todos os povos: “Não sois vós para mim, filhos de Israel, como os filhos dos etíopes?” (Amós 9:7), e a negritude de um dos profetas, Sofonias, “filho de Kush (Sf 1;1)”, o antigo império etíope de onde descendeu a Rainha de Sabá, de cuja união com o Rei Salomão se originaram os judeus falashas, negros etíopes com sangue e fé judaica. Era falasha o o
ficial que Felipe evangelizou, fazendo com que o Evangelho ultrapassasse as barreiras da Terra Santa. Portanto, a fé cristã deve muito do que hoje é aos negros e sua cultura, que fazem parte de sua história. Isso sem falar em irmãos de fé como Rosa Parks, Martin Luther King, Desmond Tutu e uma miríade de pastores negros, sem fama ou renome, que evangelizam em favelas, presídios e cidades de todo o país. Não se desconhece, entretanto, algumas abordagens infelizes da fé cristã em relação ao negro, como a lamentável teologia da “Maldição de Cam”, evocada pelo inquisidor católico Juan Batista de las Casas em 1826 e que em 2011 voltou a ser destaque na declaração infeliz de um conhecido parlamentar assembleiano. Na época, encaminhei um documento pessoal à Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, Manuela D’Ávila, destacando que Cristo nos resgatou de toda maldição (Gl 3.13) e da lei do pecado da morte (Rm 8.2), revogando em si mesmo todas as imprecações do Antigo Testamento Sendo um quase-branco trisneto de imigrantes libaneses, talvez até alguém pudesse questionar minha legitimidade para este assunto. No entanto, creio firmemente que a igualdade racial é um debate que deve ser, sim, enfrentado no Brasil. Mas de uma forma que não reduza o negro à um certo racialismo mainstream altamente influente nos dias atuais. Mas que, pelo contrário, o negro possa se expressar dentro de sua pluralidade, sem uma tradição religiosa se impondo sobre as demais.