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sábado, 2 de março de 2013

O anticristianismo militante do CFP. Ou: para onde vão as ordens profissionais?

Nestes tempos em que as liberdades civis e institucionais são correntemente desprezadas, tenho me perguntado para que servem, afinal, as ordens profissionais no Brasil. Para proteger os interesses de sua classe é que não é. Na maior parte dos casos, quando não é para o enriquecimento ilícito de seus dirigentes, tem se prestado ao puro e simples proselitismo político. Estamos agora diante de um caso absurdamente emblemático, que é a perseguição movida pelo Conselho Federal de Psicologia contra a psicóloga Marisa Lobo. O crime da psicóloga: afirmar, em alto e bom som, seus valores cristãos nas redes sociais. Anos atrás, o mesmo órgão, como se fosse uma espécie de Congregação do Santo Ofício, tentou impor “silêncio obsequioso” à psicóloga, sob o falso pretexto de que atendia homossexuais em busca de reorientação e de que agia como “pregadora” no consultório. Para o CFP, Marisa Lobo infringe a ética ao se apresentar como “psicóloga” e “cristã”. Mas o conselho age em favor do laicismo republicano, diriam alguns. O que estranha é que não há, nem de longe, o mesmo rigor contra uma série de profissionais que, em seus sites profissionais e perfis nas redes sociais, propõem uma abordagem da psicologia sob a ótica do Islã, da Umbanda, do Judaísmo, Budismo e tantas outras vertentes. Nada contra, mas por que apenas Marisa Lobo é intimada pelo CFP a excluir de seus perfis em redes sociais a menção de que é cristã? Por laicismo ou por anticristianismo militante? A resposta é simples: porque o CFP há muito deixou de ser uma entidade que zela pelo interesse de sua classe, servindo tão-somente para promoção de bandeiras casuísticas da esquerda no campo da psicologia. Quisera que este caso fosse a única distorção evidente da finalidade de uma ordem profissional, mas não é o caso. A OAB, tão presente na memória afetiva do país por suas lutas em favor da democracia e das eleições diretas, tem se omitido vergonhosamente em casos onde a liberdade de expressão é ameaçada, como no estranho silêncio diante das agressões sofridas pela blogueira Yoani Sanchez em sua passagem pelo Brasil. Silêncio, aliás, compartilhado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), que foi, na prática, condescendente contra as agressões a uma mulher armada apenas com sua palavra. De uns tempos pra cá, a Fenaj só se importa em querer impedir pessoas sem formação de exercer o jornalismo, para poder garantir a sobrevivência de seus cofres. Tal como a OAB com sua provinha para o exercício da advocacia, a Fenaj é apenas uma guilda para garantir reserva de mercado profissional. Nada além. Enquanto as ordens profissionais forem usadas apenas como correias de transmissão de um pensamento ideológico que abomina a liberdade individual de crença, dias perigosos virão.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Não tem Preço



“A Lei do Senhor é perfeita, e restaura a alma” (Salmo 19:7ª)

Há uma peça publicitária de uma empresa de cartões de crédito que fez tanto sucesso que se transformou em parte da cultura pop, sendo reproduzida em piadas e outras criativas brincadeiras em redes sociais. Ao apresentar uma situação qualquer (um jogo de futebol, um passeio no parque), o locutor vai falando preços dos itens mostrados, numa escala crescente até descrever a sensação proporcionada pela compra, com os dizeres: “não tem preço”.
Todo mundo tem, na sua escala de valores, algo que não tem preço. E muitos buscam naquilo que tem preço, algo que deveria ter apenas valor. Ao longo da vida, buscando um sentido para a existência, muitos buscam a felicidade em certos valores intangíveis: fama, luxo, poder, status. Entretanto, a Bíblia nos revela que o valor fundamental, que dá efetivo equilíbrio à vida humana, é bem mais simples, e em língua portuguesa, atende por um nome de três letrinhas apenas: Paz.
Jacó, filho de Isaque, buscava a realização pessoal a qualquer preço. Ludibriou o irmão para conquistar a bênção da primogenitura, e enganou o próprio pai, passando-se pelo irmão para ser abençoado. A sina de “suplantador” (o significado da palavra “Jacó”) o acompanhava, mas todo o resultado de sua grande esperteza foi se tornar um fugitivo no meio do deserto, temendo pela própria vida, sem morada ou paradeiro. Ele só encontrou aquilo que buscava, quando entregou seu coração a Deus. Obedecendo aos propósitos de Deus, reconciliou-se com o irmão, recuperou-se de anos e anos de exploração pelo próprio sogro e casou com a mulher de sua vida.
Nossa sociedade atual aplaude o “malandro”, pela esperteza ou sagacidade com que passou a perna nesse ou naquele. Mas são aplausos que desaparecerão no momento da dificuldade, e que não compensam o medo e a ansiedade de quem vive de sortilégios. A pessoa que, ao contrário, vive de acordo com os valores da Palavra de Deus, sempe terá paz em sua alma, por saber que não precisa pensar em grandes expedientes para “se dar bem”. Para quem faz a vontade de Deus, Ele providencia tudo.
Pisar no pescoço alheio pra ter fama, status ou poder? Não, obrigado. Viver com paz de espírito e sob a proteção de Deus, não tem preço.
Deus te abençoe abundantemente.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Descanse em paz, John



“Sou cristão não porque a fé cristã é atrativa, mas porque é verdadeira” (John Stott).

Lembro ainda de quando fui apresentado pela primeira vez a um texto de John Sttott. Em meu primeiro ano como professor do Instituto Teológico Quadrangular, recebi a determinação de fazer a resenha de um livro, pra anexar ao nosso prontuário. Todos os professores que ingressam no Instituto tinham que produzir uma resenha crítica da mesma obra. O livro em questão era o famoso “Crer é Também Pensar”, de John Stott, e o impacto foi imediato. Enfim, havia encontrado um autor cristão que fazia uma defesa clara e competente da importância do pensamento crítico para a genuína fé. Fui buscando conhecer mais e mais de suas obras, e sem grande esforço, fui reconhecendo neste teólogo britânico o meu autor favorito.
John Stott partiu para junto do Senhor nesta quarta-feira, 27 de julho, aos 90 anos, exatos quatro anos depois de anunciar sua aposentadoria em julho de 2007. Autor de uma extensa obra teológica e devocional, com mais de 50 livros, Stott se caracterizava pela defesa intransigente da racionalidade do Evangelho. Fiel às suas raízes reformadas, é considerado por muitos estudiosos cristãos da atualidade como o teólogo mais influente do século XX, opinião da qual discordo. Podemos até dizer, com alguma justiça, que ele foi um dos mais “conhecidos” teólogos do século, mas se realmente sua influência tivesse sido na mesma proporção, a Igreja Evangélica não estaria tendo tantos descaminhos.
Stott marcou, sem dúvida, a formação de uma geração inteira de pastores que buscaram se comprometer exclusivamente com o Evangelho da Cruz. Mas, tristemente, a clareza de seu pensamento tem sido abandonada em favor de um “outro evangelho”, como diria o apóstolo Paulo, onde prospera um emocionalismo escravizante e uma concepção meramente utilitária da fé. Pregadores influentes repetem em programas de televisão que “a Bíblia só funciona onde a pessoa acredita”. Stott, ao contrário, dizia que a fé no Filho de Deus não podia ser reduzida a uma mera “funcionalidade”, como um objeto qualquer. Deus deve ser amado porque é Deus, não porque “funciona”.
Chutou pra longe o autoritarismo clerical ao dizer que os pastores estão sob Cristo para servir, e não “sobre” os crentes para comandar. Chocou os propagadores de uma fé puramente emotiva ao dizer que “o amor é mais um serviço do que um sentimento”, e teve a coragem de afirmar que Deus amava os que buscavam a sabedoria, numa época em que o desprezo ao conhecimento e a apologia da ignorância vicejam como pragas na seara. E pra escandalizar ainda mais a mentalidade autoritária de certo pseudo-cristianismo, viveu tudo aquilo que pregou, investindo na formação de líderes cristãos de todo o mundo, especialmente dos países pobres, através do Fundo Langham Partnership International.
Que a alma de John Stott descanse em paz, mas não o seu pensamento. Que ele permaneça vivo nas páginas de seus livros, inquietando pastores e crentes, e incendiando altares em todo o mundo.
Amém.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Livre-se dos Porcos...


"Não dêem o que é sagrado aos cães, nem atirem suas pérolas aos porcos; caso contrário, estes as pisarão e, aqueles, voltando-se contra vocês, os despedaçarão” (Mateus 7:6).

Muitas pessoas cultivam a respeito de Jesus a imagem de que Ele era um mestre do Amor, o maior pacifista de todos os tempos. A primeira sentença é absolutamente correta, mas não a última. O pensamento que reduz Jesus à condição de grande pacifista conduz ao erro de supor que seus ensinamentos não podem ser aplicados às situações de conflito que experimentamos em nossa vida.
Felizmente, o Jesus que a Bíblia nos apresenta era, sim, Mestre do Amor e Príncipe da Paz, mas acima de tudo, era também um Mestre da Vida. E a vida, como sabemos, não possui somente momentos agradáveis. Há situações em que escapar ao conflito não é uma opção, e Ele próprio não deixou de ter controvérsias bastante duras, seja discutindo com os fariseus, seja expulsando os cambistas e mercadores do Templo, e até – ousadia das ousadias – chamando Herodes de raposa. Jesus não entrava em conflito o tempo todo, é claro. A diferença – e isso deveria ser lição para nossa vida – é que ele sabia quando um conflito era imprescindível.
Nos dias de hoje, costumamos gastar tempo e energia com pessoas que não deveriam merecer um milionésimo de segundo de nossa atenção. Reagir a toda e qualquer provocação, a qualquer tempo, é uma forma segura de desperdiçar energia, que poderia ser mais bem empregada em atividades proveitosas. É isso que Jesus quer nos dizer quando nos recomenda que “não atiremos pérolas aos porcos”. Na cultura judaica, de onde vêm as bases do Cristianismo, o “porco” representava a impureza. Ou seja: não se deve perder tempo com quem não merece esse tempo.
Aqui no Sul, usa-se muito o ditado: “Quem muito se mistura aos porcos acaba comendo farelo”, uma frase de inspiração bíblica, que relembra a passagem do Filho Pródigo, que deixou a casa do pai para terminar desejando o que os porcos comiam. É exatamente a respeito disso que Jesus nos alerta. Há pessoas que, por mais que queiram, não tem condições efetivas de desestabilizar você, a menos que você mesmo lhes dê espaço. Outros vão procurar ter conflito direto com você por inveja e até desejo de ibope, coisa que só irão obter se você lhes der atenção.
Há conflitos que, vez por outra, precisam ser comprados. Jesus combateu os fariseus porque acreditava em uma causa que valia a pena ser defendida. Mas ignorou as provocações de Pilatos. Há pessoas que não merecem a honra de um combate. Livre-se dos porcos e priorize gastar seu tempo naquilo que realmente importa.
Deus te abençoe grandiosamente.

terça-feira, 8 de março de 2011

O Maior Feminista de Todos os Tempos



Então respondeu Jesus, e disse-lhe: Ó mulher, grande é a tua fé! (Mateus 15:28)

O Dia Internacional da Mulher completa 100 anos neste 2011. A origem da data ás vezes é erroneamente associada com o incêndio provavelmente criminoso em uma fábrica de operárias em Nova Iorque em 1911, mas a primeira manifestação organizada desta data que se tem notícia ocorre na Rússia, nas históricas manifestações por “Pão e Paz”, que acabaram deflagrando a Revolução Leninista de 1917. Na gênese dessa data histórica, outros movimentos de reivindicação de direitos em toda a Europa apontam para uma espécie de monopólio ideológico do materialismo laico que, hoje, tem tido bastante êxito em associar sua identidade às conquistas da civilização. Tanto assim é que, para a maioria das pessoas, a religião de um modo geral, e o Cristianismo em particular, está associada ao atraso e ao obscurantismo, enquanto o progresso seria resultado exclusivo da ciência, liderada por um certo saber laico, materialista e anti-religioso.
Entretanto, o fato de esta idéia ser hoje quase onipresente na mídia, nas artes e noutras formas de expressão, não significa que seja verdade. Ao contrário do que ensina nossa übercultura pós-moderna, a fé preconizada por Jesus Cristo sempre foi uma força de inclusão e tolerância, que teve como uma de suas marcas mais distintivas o tratamento dispensado à mulher.
Se Jesus Cristo retornasse hoje à terra, talvez seria obrigado a desautorizar muitos que usam seu nome para oprimir cultural e socialmente as mulheres. Ele, que como Filho de Deus, deveu seu surgimento entre os homens à uma mulher chamada Maria, que aceitou ser a mãe do Salvador (você leu bem: aceitou, não foi forçada a obedecer a um Deus insensível). É este pregador galileu que, anos mais tarde, na sua primeira grande pregação doutrinária, proíbe o repúdio e o abandono social das mulheres, sempre a parte do casal que mais sofria em um divórcio (Mt 5:32).
Jesus agia de forma radicalmente diferente dos rabinos do seu tempo, que não podiam sequer dirigir palavra a uma mulher. Ao contrário, Cristo sempre tratou-as com especial atenção: a mulher do fluxo de sangue (Mt 9:20), a mulher cananéia (Mt 15:28), a prostituta que ungiu seus pés (Mc 14:3), a samaritana junto ao poço de Jacó (Jo 4:7), a mulher flagrada em adultério e perdoada (Jo 8:3) e Maria de Magdala, a ex-prostituta, a primeira pessoa a ver Jesus ressuscitado (Jo 20:11-18), portanto a primeira evangelista da história. O Novo Testamento, escrito por judeus que vinham de uma cultura fortemente machista, não puderam deixar de registrar os atos de um Messias que veio para libertar todos os cativos e oprimidos, e isto incluiu, sim, as mulheres de seu tempo.
Onde quer que a mensagem de Jesus tenha chegado, uma das conseqüências imediatas era o fato de as mulheres reconhecerem seu próprio valor. Sua mensagem impulsionou mulheres da Bíblia como Dorcas (At (9:39), Maria mãe de João Marcos (At 12:12), Lídia (At 16:15), Priscila (At 18:2), e mais recentemente, outras que encontraram nos ensinos de Jesus a motivação para tocar multidões, como as católicas Tereza de Ávila (1515-1582) e Tereza de Calcutá (1910-1997), a protestante Suzana Wesley (1669-1742) as pentecostais Kathryn Kuhlman (1907-1976) e Aimée Semple McPherson (1890-1944) e a ativista negra Rosa Parks (1913-2005), dentre tantas outras que ainda mudam o mundo, anonimamente, todos os dias.
Há ainda um longo trajeto a percorrer na busca da igualdade de direitos, mas os valores da mensagem de Cristo, o maior feminista de todos os tempos, ainda continuam mostrando o caminho.
Deus te abençoe abundantemente.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Vivendo por fé: A Reforma, 493 anos


"Mas o justo viverá pela fé"....(Habacuque 2:4b)

Um frade agostiniano relativamente jovem atravessou a passos largos a praça de Wittenberg em uma manhã outonal de 1517. A cadência firme dos seus passos não deixou de chamar a atenção dos que transitavam, uns a passeio, outros a trabalho como o vendedor de frutas e o artesão que trabalhava ao ar livre. O frade cruza a praça com firmeza em direção à Catedral, em cuja porta de mogno fixa um cartaz contendo uma Convocação para um Debate. O documento chama-se Disputatio pro delaratione virtutis indulgentiarum, e expõe, em 95 teses, uma firme contestação ao abuso clerical na venda de indulgências. Com este simples gesto, naquele longínquo 31 de outubro, o monge alemão Martinho Lutero iniciou uma revolução que sacudiu a Europa e lançou os alicerces da Reforma Protestante, o movimento que, no dizer do cientista político Robert Dahl, “inaugurou o pluralismo na cultura ocidental”. Mas a verdadeira revolução havia acontecido anos antes, nos primeiros anos da sua formação sacerdotal, quando ganha uma Bíblia de presente do seu mentor espiritual, João Staupitz, vigário-geral dos agostinianos, onde leu o trecho de Romanos 1:17, que mudou para sempre sua maneira de compreender a fé cristã: “O justo viverá pela fé”.
Esta expressão, que foi central na pregação de Lutero e do apóstolo Paulo de Tarso, merece ser revisitada hoje, quando a Reforma Protestante completa 493 anos. E nos remete ao tempo em que foi ouvida pela primeira vez, por volta do ano 600 a.C, em resposta a uma oração do profeta Habacuque, testemunha de um dos períodos mais críticos da história de Judá. Com o sistema legal arruinado, a injustiça social e a iminência de uma invasão da Assíria, levaram o profeta a proclamar: “Até quando, Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritar-te-ei: violência! E não salvarás?”. (Hc 1:2)
O desabafo de Habacuque ecoou no coração de Lutero quando via o deprimente espetáculo da venda de indulgências pelo frei João Tetzel na Alemanha. E hoje, quase meio milênio depois, quando muitos pregadores ‘evangélicos’ negociam as bênçãos e os favores de Deus conforme o vulto da oferta financeira dos fiéis, muitos cristãos, anelando pelo Cristianismo bíblico e verdadeiro, se questionam: “Até quando?”. Muitos já nem esperam mais pela resposta de Deus a esta pergunta, e há muito deixaram de acreditar na igreja como instituição. São pessoas que amam a Jesus, mas não querem mais nada com a Igreja.
Após pronunciar sua oração, Habacuque foi para a torre de vigia, esperar a resposta de Deus. Não tomou nenhuma atitude insensata, não agiu por impulso. E a resposta de Deus ao profeta, dizendo que “o justo viverá pela fé”, ecoa ainda pelos séculos, ressoada pela pregação do apóstolo Paulo aos gentios e pela coragem de Lutero na Alemanha. As dificuldades não poderiam mais ter poder para desanimar o profeta.
O livro de Habacuque termina com uma linda canção de louvor: “Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento, todavia eu me alegro no Senhor e exulto no Deus da minha salvação” (Hc 3:17-18). Ao redor, a situação continuava praticamente a mesma, mas a maior mudança havia acontecido no coração do profeta, que não mais permitiu que as circunstâncias destruíssem sua confiança em Deus. Ao encontrar a fé, Habacuque recuperou a narrativa sobre si mesmo.
Esta é minha oração sobre a igreja contemporânea. Muitos são os desafios, mas se continuarmos crendo que “o justo viverá pela fé”, como Habacuque, Paulo e Lutero, teremos o poder de Cristo Jesus para transformar as circunstâncias.
Que o Senhor Jesus te abençoe abundamentente.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Cuidado com os bajuladores...



“Este povo me honra com seus lábios, mas o seu coração está longe de mim (Mateus, 15:8)”.

O versículo bíblico que motiva a presente reflexão é um dos mais contundentes de toda a Bíblia. Na ocasião narrada pelo evangelista Mateus, Jesus estava ensinando a Palavra de Deus a seus discípulos quando foi abordado por homens, previamente instruídos pelos fariseus, que faziam forte oposição a Cristo. Aqueles homens tinham a missão de fazer uma pergunta a Jesus, cuja resposta lhe colocasse em uma situação difícil. É interessante observar que tais personagens se aproximam de Jesus com palavras elogiosas, antes de fazerem a tal perguntinha difícil. O versículo 21 diz textualmente que eles falaram: “Mestre, nós sabemos que falas e ensinas bem e retamente, e que não consideras a aparência da pessoa, mas ensinas com verdade o caminho de Deus. É-nos lícito pagar tributo a César ou não?”.
Mal sabiam eles que Jesus não era suscetível à vaidade, como os fariseus inseguros que aqueles escribas estavam acostumados a manipular. Muitas pessoas, no jogo do poder, tornam-se vulneráveis à ação deletéria dos bajuladores, mas Jesus os desmascarou com esta expressão que vai direto ao ponto, sem rodeios: ““Este povo me honra com seus lábios, mas o seu coração está longe de mim”.
Jesus, ao citar estas palavras, estava confirmando as palavras de Isaías 29:31, quase textualmente. Trata-se, sem dúvida, de uma frase emblemática, de impacto evidente, e se houvesse Twitter na época, essa frase de Jesus seria comentada por semanas. Felizmente, mesmo sem esta tecnologia, atravessa os séculos. E isto porque Jesus, de forma incisiva, faz uma distinção entre a Honra e a Lisonja.
A verdadeira honra é uma postura que agrada a Deus, e procede do coração. Já a lisonja é um fingimento, é uma postura falsa, que procura imitar a honra, mas tem outras intenções. Muita gente, na política, no mundo dos negócios e até dentro das igrejas, usa as lisonjas e bajulações como estratégia de sobrevivência. No entanto, Jesus deixa claro que a verdadeira honra procede do coração, e que se ele não estiver envolvido nas palavras, por mais elogiosas que chegam, estamos diante de uma mentira. Não se engane: são as atitudes, e não as belas palavras de alguém, que mostram quais são suas verdadeiras prioridades na vida.
Ao nos afirmar que a verdadeira honra procede do coração, Jesus rejeita as palavras doces que alguém possa lhe dirigir se não o amar efetivamente. Esta mensagem de Jesus revela um ardente desejo pela coerência, que só pode ser praticada por quem diz o que faz, e faz o que diz.
O fingimento é uma espécie de mentira não-verbal, uma mentira que depende mais de gestos do que de palavras. Alguém pode fingir muito bem que é bom amigo e que é religioso, mas seu coração pode esconder interesses mesquinhos. Quem, todavia, pauta sua vida pela integridade, sabe reconhecer de longe esses embusteiros, que não prosperam por muito tempo.
A melhor estratégia de sobrevivência continua sendo a verdade. Honrar a Deus, à família, aos amigos, aos colegas, será sempre melhor do que somente bajulá-los. A bajulação é sempre uma mentira. A honra, esta sim, é verdadeira. Pratique-a, e você a receberá em dobro.
Deus te abençoe abundantemente.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Relacionamento entre Irmãos...



...e na angústia nasce o irmão” (Provérbios 17:17b).

O primeiro crime da história da humanidade, segundo nos informa a Bíblia, foi um assassinato. Mais do que um assassinato, foi um fratricídio. Conforme nos relata o livro do Gênesis, Caim matou Abel por ciúmes, em virtude de seu sacrifício ter sido aceito por Deus, enquanto o dele foi rejeitado. Esta narrativa não deixa de ter seu lado paradoxal, se observarmos a forma como Jesus, ao longo dos quatro Evangelhos, insiste que o relacionamento entre cristãos deve ser pautado pelo amor que existe entre irmãos. Por que Jesus faz esta analogia, se ele próprio, nas leituras que certamente fez da Torah, conhecia muito bem a história de Abel e Caim?
O relacionamento com os irmãos de sangue é vital para a compreensão da saúde emocional do ser humano, dizem os estudos mais recentes da psicanálise. Para a criança, o irmão normalmente é o primeiro amigo, o primeiro rival, o primeiro competidor. E as competições iniciam, invariavelmente, pela atenção dos pais. A Bíblia está cheia de exemplos de homens e mulheres notáveis que, como pais, não conseguiram administrar o convívio entre seus filhos, e ás vezes atrapalhavam tudo, manifestando claramente a preferência por um ou outro. Abraão amou seu filho Isaque, pai do povo judeu, mas expulsou para o deserto seu filho Ismael, pai do povo árabe (As conseqüências são conhecidas até hoje). Isaque amava mais ao filho mais velho Esaú do que a Jacó, mas graças à intervenção da mãe, foi o filho mais novo que recebeu a bênção de herdeiro. Jacó, por sua vez, amava mais ao filho José que aos seus outros dez filhos, o que rendeu ao filho favorito uma emboscada que lhe custou anos de sofrimento no Egito.
Muitas famílias são marcadas por conflitos de irmãos que não se falam. Ou porque um deles se sentia preterido pelos pais, ou até por razões de herança, reforçando um modelo de competição que gera famílias doentias. O modelo de Jesus, entretanto, passa longe disso. Certa feita, quando Jesus pregava, um sujeito interrompeu sua fala para pedir: “Mestre, diga a meu irmão que reparta comigo sua herança”, ao que Jesus respondeu: “Homem, quem me pôs a mim por juiz ou repartidor entre vós?” (Lucas 12:14). Jesus simplesmente se recusa a arbitrar uma briga gerada por mesquinhez e ganância. O modelo familiar de Jesus é o da cooperação, não a competição. É por isso que o Novo Testamento adverte: Aquele que diz que está na luz, e odeia a seu irmão, até agora está em trevas. Aquele que ama a seu irmão está na luz, e nele não há escândalo (1ª João 2:9-10).
O Senhor Jesus, sendo Filho de Deus, ao fazer conosco uma aliança espiritual de sangue, torna-nos filhos espirituais de Deus, fazendo-nos irmãos d’Ele. Ou seja, aquele que nos concedeu o maior presente jamais visto, a Salvação Eterna, o fez por amor fraternal.
Éramos quatro irmãos em casa, fora um que faleceu antes de eu nascer. Brigas e diferenças de opiniões, sempre tivemos, e acho que sempre teremos. Mas lembro com carinho das vezes em que meu irmão mais velho me defendia de apanhar na escola, e olha que pra fazer isso ele saía da escola onde ele estudava praticamente correndo. Os outros irmãos mais novos, com seu jeito espontâneo e alegre, me ensinaram a ser mais humano e compreensivo. E mais otimista, também.
Acho que família é isto. E é isto que Deus requer de nós...que nos amemos como irmãos, que embora ás vezes possam até discutir, continuem ligados sempre um ao outro.
Deus te abençoe abundantemente.