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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

O Papa, os Evangélicos e a Forca de Anchieta

As câmeras de todo o mundo tinham suas lentes voltadas para Roma, quando o cardeal Jean-Marie Touran assomou à varanda central da Basílica de São Pedro em 13 de março do ano passado, e pronunciou a milenar fórmula do “Habemus Papam”, proclamando a eleição do primeiro pontífice latino-americano da história da Igreja Católica Romana. A notícia foi recebida com entusiasmo e esperança até mesmo fora dos muros católicos. Líderes de diversas igrejas cristãs da Argentina davam testemunho a respeito de Juan Mario Bergoglio, então cardeal de Buenos Aires, como um amigo dos evangélicos, homem de diálogo e apoiador de mobilizações conjuntas em defesa de pontos de vista comuns, como o combate ao aborto e a promoção da família. De fato, os primeiros movimentos do novo pontífice romano pareciam apontar na direção de uma relação mais amistosa com os evangélicos que a de seu antecessor, Bento XVI, que numa de suas homilias chegou a agredir as igrejas pentecostais, a quem acusou de promover um cristianismo com “pouca densidade institucional e bagagem racional”. Francisco, ao contrário, recebeu líderes de outras igrejas cristãs, como o arcebispo anglicano Justin Welby, o patriarca ortodoxo de Constantinopla Bartolomeu I, e o pastor pentecostal Tony Palmer, entre outros, e chegou a gravar uma mensagem em vídeo para as igrejas pentecostais, definindo a divisão entre os cristãos como um pecado. Mas estes movimentos, normais na retórica dos papas desde João XXIII, precisam ser comparados com as atitudes internas da Igreja Católica. E neste particular, surgem alguns paradoxos, como no anúncio recente da canonização do frei português José de Anchieta, pioneiro do processo de catequização católica do Brasil. A cultura popular brasileira costuma olhar com benevolência a figura de José de Anchieta, tido entre os católicos como “o Apóstolo do Brasil”, e considerado um dos expoentes do Quinhentismo, período do nascimento da Literatura Brasileira. Poucos sabem, no entanto, do papel desempenhado pelo agora São José de Anchieta na prisão e morte dos primeiros pastores protestantes a atuar no Brasil. Durante a “França Antártica”, colonização francesa do Rio de Janeiro que durou de 1555 a 1567, o vice-almirante francês Nicolás de Villegaignon autorizou, por sugestão do calvinista Gaspar de Coligny, que se solicitasse a João Calvino o envio de missionários. Os pastores Pierre Richier, Guilherme Chautier, Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil, Pierre Bourdon, André Lafon e Jacques Le Balleur, chegaram ao Brasil em 7 de março de 1557, celebrando, três dias depois, o primeiro culto protestante do Brasil (e das Américas, diga-se de passagem), com a leitura do Salmo 27;4: “Uma coisa pedi ao Senhor e a buscarei, que eu possa habitar todos os dias na Casa do Senhor e habitar no seu Santo Templo”. Os missionários atuaram com liberdade durante a ocupação francesa ao Rio de Janeiro, mas quando Villegaignon cedeu às pressões políticas dos jesuítas, foram condenados à morte. Jacques Le Balleur, também chamado João de Bolés, conseguiu fugir para o continente e vandeou até São Vicente, sendo poupado de ser devorado pelos índios por estar com um lívro, que os Tupinambás pensaram ser a tão esperada e prometida Bíblia, que era tida como um amuleto. Tratava-se, no entanto, de uma peça de Rabelais. Em São Vicente os jesuítas forçaram a Câmara Municipal a prendê-lo em 1559. Foi torturado para dar informações estratégicas do Forte Coligny. Levado a Salvador, onde Mem de Sá concordou em condená-lo por ser seguidor da fé protestante. Em 1567 foi levado ao Rio de Janeiro, onde seria executado, mas o carrasco recusou a matá-lo. E em 9 de fevereiro de 1558, o Padre José de Anchieta estrangulou-o. Evidentemente, historiadores católicos contestam esta afirmação, afirmando que o Tribunal de Inquisição funcionava ainda em Lisboa, e não no Brasil Colônia. Ocorre que Bolés não foi julgado pela Inquisição, e sim pelas autoridades locais, sob forte influência jesuítica. Quem tiver dúvidas a respeito, leia “História do Brasil”, volume 3, do historiador José Francisco da Rocha Pombo, ou “A Presença dos Reformados Franceses no Brasil Colonial” de Franklin Ferreira, ou qualquer outra obra séria sobre o Brasil-Colônia. Do ponto de vista da organização católica, faz todo sentido que Francisco, um papa jesuíta, canonize José de Anchieta. No entanto, para um pontífice que, até outro dia, anunciava o desejo de diálogo com os evangélicos, a decisão de canonizar um personagem controverso, que carrega na sua história o sangue de missionários protestantes, seguramente vai na contra-mão de suas propaladas intenções. Tenho respeito intelectual suficiente pelo papa para não acreditar que este fato tenha sido um equívoco, proveniente de qualquer tipo de desinformação. Até hoje, por razões semelhantes, o Vaticano tem evitado falar na canonização do Papa Pio XII, que mesmo não tendo matado ninguém diretamente, é acusado de silêncio complacente diante do nazismo de Adolph Hitler. Mas no caso de Anchieta, o estrangulamento de um pastor evangélico não pareceu chocar os príncipes da Igreja. Esta passagem sobre a vida de Anchieta é suficientemente conhecida pelos prelados católicos, a ponto de existirem obras que a contestam, o que permite supor que o Vaticano decidiu, solenemente, premiar o jesuíta Anchieta como um “bom soldado da Igreja”, não apenas disposto a morrer, mas também a matar por sua fé. Eis aí: por trás dos discursos sorridentes e promessas de “renovação” da Igreja Católica, numa simples e corriqueira canonização ressurge a velha Igreja Romana de sempre.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Livre-se dos Porcos...


"Não dêem o que é sagrado aos cães, nem atirem suas pérolas aos porcos; caso contrário, estes as pisarão e, aqueles, voltando-se contra vocês, os despedaçarão” (Mateus 7:6).

Muitas pessoas cultivam a respeito de Jesus a imagem de que Ele era um mestre do Amor, o maior pacifista de todos os tempos. A primeira sentença é absolutamente correta, mas não a última. O pensamento que reduz Jesus à condição de grande pacifista conduz ao erro de supor que seus ensinamentos não podem ser aplicados às situações de conflito que experimentamos em nossa vida.
Felizmente, o Jesus que a Bíblia nos apresenta era, sim, Mestre do Amor e Príncipe da Paz, mas acima de tudo, era também um Mestre da Vida. E a vida, como sabemos, não possui somente momentos agradáveis. Há situações em que escapar ao conflito não é uma opção, e Ele próprio não deixou de ter controvérsias bastante duras, seja discutindo com os fariseus, seja expulsando os cambistas e mercadores do Templo, e até – ousadia das ousadias – chamando Herodes de raposa. Jesus não entrava em conflito o tempo todo, é claro. A diferença – e isso deveria ser lição para nossa vida – é que ele sabia quando um conflito era imprescindível.
Nos dias de hoje, costumamos gastar tempo e energia com pessoas que não deveriam merecer um milionésimo de segundo de nossa atenção. Reagir a toda e qualquer provocação, a qualquer tempo, é uma forma segura de desperdiçar energia, que poderia ser mais bem empregada em atividades proveitosas. É isso que Jesus quer nos dizer quando nos recomenda que “não atiremos pérolas aos porcos”. Na cultura judaica, de onde vêm as bases do Cristianismo, o “porco” representava a impureza. Ou seja: não se deve perder tempo com quem não merece esse tempo.
Aqui no Sul, usa-se muito o ditado: “Quem muito se mistura aos porcos acaba comendo farelo”, uma frase de inspiração bíblica, que relembra a passagem do Filho Pródigo, que deixou a casa do pai para terminar desejando o que os porcos comiam. É exatamente a respeito disso que Jesus nos alerta. Há pessoas que, por mais que queiram, não tem condições efetivas de desestabilizar você, a menos que você mesmo lhes dê espaço. Outros vão procurar ter conflito direto com você por inveja e até desejo de ibope, coisa que só irão obter se você lhes der atenção.
Há conflitos que, vez por outra, precisam ser comprados. Jesus combateu os fariseus porque acreditava em uma causa que valia a pena ser defendida. Mas ignorou as provocações de Pilatos. Há pessoas que não merecem a honra de um combate. Livre-se dos porcos e priorize gastar seu tempo naquilo que realmente importa.
Deus te abençoe grandiosamente.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Nós não somos obscurantistas



Pr. Martin Luther King, Robert Raikes, William Wilberforce, Dietrich Bonhöeffer, Pr. Jaime Wright, Missionário Manoel de Mello, Dom Oscar Romero e Dom Paulo Evaristo Arns. Qualquer estudioso que se preze chamaria estes homens de fé de heróis da humanidade.

Olho pra todos os lados, para as páginas dos jornais, para o noticiário frenético da televisão, pra tela fria das redes sociais, e meu coração só consegue exprimir uma única pergunta ao Deus Todo Poderoso: “O que fizeram com o Cristianismo?”. Na esteira da indigência cultural de uma geração despreparada para pensar e argumentar, cresce a aceitação de livros e artigos de ateus militantes como Richard Dawkins, Daniel Bennet, Sam Harris, Christopher Hitchens, entre tantos outros. Na leitura de suas diatribes, tão agressivas quanto infantis, não reconheço o Deus de que estão falando, contra cuja existência se apresentam tão irados. O Deus cuja menção provoca ira nestes ateus é um carrasco, misógino, e quando eventualmente fala de amor, não está nem mesmo sendo original, porque repete o que outros já haviam dito antes. Um tipo de Deus que os faz concluir que o mundo, refém de guerras religiosas e fanatismos vários, ficaria melhor sem Ele. De onde tiraram isso? Quando foi que a mensagem cristã, o Evangelho de Jesus começou a ser associado ao obscurantismo, ao atraso?
Eu me faço esta pergunta, mas no fundo, sei a resposta. Sim, sim, eu também conheço o Deus de quem falam estes ateus. Eu o vejo por aí, na pregação não menos histriônica e infantil de líderes religiosos pretensamente cristãos. Como esperar que um europeu pós-moderno veja algo de bom num Deus propagado por padres pedófilos? Como esperar que um sul-americano minimamente honesto não sinta sua inteligência agredida quando fica claro que o pastor mantém o padrão de vida de um executivo ás custas da contribuição dos fiéis, que passa a ser apresentada como uma “semente”, na maior empulhação teológica dos últimos tempos? Como esperar que um homossexual acredite que Deus ama o pecador apesar do seu pecado, quando líderes influentes do segmento evangélico os tratam com evidente desamor, agravando ainda mais a sua já tão dura rejeição social? Como apresentar um Deus de amor se a imagem que se revela é de líderes egoístas, autocentrados, manipuladores, despóticos e hipócritas na sua intimidade?
Este não é o meu Deus! Do fundo do meu coração, este não é o meu Cristianismo! Não é esta a fé que a Bíblia Sagrada me mostra. A Palavra Revelada apresenta um Deus que emancipa e promove o homem, não um deus que o massacra, o restringe, o manipula.
O Evangelho em que creio fala de um Emanuel, um “Deus-conosco” que aceitou jantar na casa de um político corrupto chamado Zaqueu, que já apanhava o suficiente dos fariseus e não havia mudado, mas encontrou no amor de Jesus uma motivação para transformar sua vida completamente. Um Deus que supera o simples moralismo, de antes e de hoje.
O Evangelho que eu li fala de um Jesus que comia na casa de um fariseu (sim, de um fariseu!) e que acolheu o gesto desesperado de uma prostituta derramando óleo de nardo, perfume caríssimo, provavelmente comprado com o dinheiro do pecado, a seus pés. Alguém que finalmente viu o desespero de uma mulher que se entregou a tantos porque estava em busca de amor, e foi liberta justamente quando Ele disse que ela “muito amou”.
O meu Cristianismo é o que inspirou John Milton e Willian Wilberforce a lutar pelo fim da escravidão na Inglaterra. É a mensagem que motivou o jornalista metodista Robert Raikes a alfabetizar filhos de operários usando a Bíblia Sagrada em plena Revolução Industrial, criando a primeira Escola Bíblica, mãe do ensino público fundamental na Europa.
O meu Cristianismo moveu homens na luta contra regimes autoritários. Dietrich Bonhöeffer e Martin Niemöller na Alemanha nazista, Dom Oscar Romero em El Salvador, e figuras como o cardeal católico Dom Paulo Evaristo Arns, o pastor presbiteriano Jayme Wright e o missionário pentecostal Manoel de Mello na ditadura militar do Brasil.
O Cristianismo em que eu creio motivou uma mulher negra chamada Rosa Parks a não ceder seu lugar a um branco no ônibus, dando o primeiro passo para a marcha liderada por Martin Luther King. Num tempo de ódio e revanchismo incitado por Malcolm X, o sonho de King incluía negros e brancos lado a lado.
A fé em que creio sempre caminhou semeando mudanças que nos levaram adiante. Não reconheço a mensagem da Cruz neste pseudo-evangelho triunfalista, reduzido apenas à moralidade. Deste “outro evangelho”, Hitchens, Dawkins e outros que tais, podem falar à vontade. Que eu até ajudo.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Vivendo por fé: A Reforma, 493 anos


"Mas o justo viverá pela fé"....(Habacuque 2:4b)

Um frade agostiniano relativamente jovem atravessou a passos largos a praça de Wittenberg em uma manhã outonal de 1517. A cadência firme dos seus passos não deixou de chamar a atenção dos que transitavam, uns a passeio, outros a trabalho como o vendedor de frutas e o artesão que trabalhava ao ar livre. O frade cruza a praça com firmeza em direção à Catedral, em cuja porta de mogno fixa um cartaz contendo uma Convocação para um Debate. O documento chama-se Disputatio pro delaratione virtutis indulgentiarum, e expõe, em 95 teses, uma firme contestação ao abuso clerical na venda de indulgências. Com este simples gesto, naquele longínquo 31 de outubro, o monge alemão Martinho Lutero iniciou uma revolução que sacudiu a Europa e lançou os alicerces da Reforma Protestante, o movimento que, no dizer do cientista político Robert Dahl, “inaugurou o pluralismo na cultura ocidental”. Mas a verdadeira revolução havia acontecido anos antes, nos primeiros anos da sua formação sacerdotal, quando ganha uma Bíblia de presente do seu mentor espiritual, João Staupitz, vigário-geral dos agostinianos, onde leu o trecho de Romanos 1:17, que mudou para sempre sua maneira de compreender a fé cristã: “O justo viverá pela fé”.
Esta expressão, que foi central na pregação de Lutero e do apóstolo Paulo de Tarso, merece ser revisitada hoje, quando a Reforma Protestante completa 493 anos. E nos remete ao tempo em que foi ouvida pela primeira vez, por volta do ano 600 a.C, em resposta a uma oração do profeta Habacuque, testemunha de um dos períodos mais críticos da história de Judá. Com o sistema legal arruinado, a injustiça social e a iminência de uma invasão da Assíria, levaram o profeta a proclamar: “Até quando, Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritar-te-ei: violência! E não salvarás?”. (Hc 1:2)
O desabafo de Habacuque ecoou no coração de Lutero quando via o deprimente espetáculo da venda de indulgências pelo frei João Tetzel na Alemanha. E hoje, quase meio milênio depois, quando muitos pregadores ‘evangélicos’ negociam as bênçãos e os favores de Deus conforme o vulto da oferta financeira dos fiéis, muitos cristãos, anelando pelo Cristianismo bíblico e verdadeiro, se questionam: “Até quando?”. Muitos já nem esperam mais pela resposta de Deus a esta pergunta, e há muito deixaram de acreditar na igreja como instituição. São pessoas que amam a Jesus, mas não querem mais nada com a Igreja.
Após pronunciar sua oração, Habacuque foi para a torre de vigia, esperar a resposta de Deus. Não tomou nenhuma atitude insensata, não agiu por impulso. E a resposta de Deus ao profeta, dizendo que “o justo viverá pela fé”, ecoa ainda pelos séculos, ressoada pela pregação do apóstolo Paulo aos gentios e pela coragem de Lutero na Alemanha. As dificuldades não poderiam mais ter poder para desanimar o profeta.
O livro de Habacuque termina com uma linda canção de louvor: “Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento, todavia eu me alegro no Senhor e exulto no Deus da minha salvação” (Hc 3:17-18). Ao redor, a situação continuava praticamente a mesma, mas a maior mudança havia acontecido no coração do profeta, que não mais permitiu que as circunstâncias destruíssem sua confiança em Deus. Ao encontrar a fé, Habacuque recuperou a narrativa sobre si mesmo.
Esta é minha oração sobre a igreja contemporânea. Muitos são os desafios, mas se continuarmos crendo que “o justo viverá pela fé”, como Habacuque, Paulo e Lutero, teremos o poder de Cristo Jesus para transformar as circunstâncias.
Que o Senhor Jesus te abençoe abundamentente.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Relativismo laico, um Totalitarismo moderno



“Assim falai, e assim procedei, como devendo ser julgados pela lei da liberdade” – Tiago 2: 12

O parlamento da França aprovou na semana passada a criação de uma subcomissão parlamentar que trate de propor meios legais para proibir a disseminação do uso da burca e do nihab entre mulheres muçulmanas. O nihab é aquilo que canhestramente chamamos de véu, e a burca é uma grossa vestimenta que cobra a mulher da cabeça aos pés, deixando apenas um espaço para os olhos. Após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 aos Estados Unidos, o mundo ocidental foi apresentado à vestimenta, logo estigmatizada como um símbolo de opressão e humilhação contra a mulher. Aliás, é em nome de uma alegação pretensamente humanista que o premier francês, Nicolas Sarkozy, defende a proibição completa destas vestes. “Não terão lugar na França”, disse o primeiro-ministro francês.
Todavia, o mundo civilizado surpreende-se ao ver passeatas de mulheres muçulmanas exigindo o direito de poder utilizar as vestes ditas opressoras. Para muçulmanos do ramo xiita, tais vestimentas são vistas como um dever sagrado, e – ironia das ironias – as mulheres muçulmanas recusam-se a aceitar a ‘proteção’ que a lei francesa lhes quer oferecer.
Este fato me fez lembrar de um outro incidente, este já bem nosso, no mês passado, quando a direção do Hospital de Clínicas de Porto Alegre resolveu retirar dali a capela católica, existente há 22 anos, para criar um certo “Espaço da Espiritualidade”, com a pretensão de representar todas as crenças. A direção do hospital alegou que o ‘privilégio’ a uma única religião é manifestamente inconstitucional.
Sou um pastor evangélico. Poderia aplaudir tanto a decisão francesa, por natural estranheza ao hábito da burka, quanto a da direção do Clínicas, já que não sou católico. Entretanto, vejo em ambas as decisões uma distorção absurda, proveniente de um mesmo pensamento ora dominante: o Relativismo Laico, em nome do qual se advoga que todas as crenças são iguais, ou, no mínimo, equivalentes.
É em nome deste mesmo princípio que certos escritores ateus despontam na Europa e América alegando que a religião – qualquer que seja – seria um veneno para o mundo. Como se a civilização moderna pudesse ser a mesma sem Agostinho de Hipona, Rambam, Maimônides, Averróis, Ibn In Saud, Martin Lutero, Confúcio e o maior de todos eles, Jesus de Nazaré.
A França, que legou ao mundo a defesa dos valores da “Liberdade, Igualdade, Humanidade”, quer transformar um grupo religioso em cidadãos de segunda classe, para que não possam praticar livremente as normas de sua religião. Estigmatiza os muçulmanos a exemplo do que a Europa fez, em épocas diferentes, com os judeus. A própria França já fez isso no século XX com os cristãos, que não podem mais expressar livremente sua fé nas praças locais. Aqui no Sul, o abuso é de outra natureza: Distorcer um princípio constitucional para tentar suprimir uma crença, substituindo-a por uma certa ‘religião da Natureza’, ao estilo dos místicos da chamada Nova Era.
Sou evangélico, mas não me sinto melindrado se vejo um crucifixo católico em um banco ou repartição pública. O fato de aquele objeto estar ali não constrange ninguém a ser católico, assim como os versículos bíblicos na sala da minha casa não constrangem nenhum visitante a tornar-se evangélico. E de mais a mais, querer apagar estes símbolos do espaço público equivale a tentar suprimir parte da história. Obscurantismo em nome de pretensos valores de igualdade.
O laicismo radical dos tempos modernos lembra muito os totalitarismos do passado, que sempre tentaram apagar da história as religiões, o Cristianismo em particular. Tentaram eliminar a cruz, acabaram sepultados abaixo dela. Mas no caminho, produziram montanhas de cadáveres e presos políticos por delito de opinião. Robespierre, Stalin, Pol Pot, Mao Tse Tung e Fidel Castro, além de ditadores, foram declarados inimigos de toda forma de fé.
Serve para hoje o alerta histórico do pastor luterano Martin Niemöller, um dos heróis da luta contra o Nazismo: Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista. Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata. Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse”.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Princípios de Autoridade



Não clamará, nem gritará, nem fará ouvir a sua voz na praça. Não esmagará a cana quebrada, nem apagará a torcida que fumega; em verdade, promulgará o seu direito. (Isaías 42:3).

Mais ou menos por volta do ano 1998, quando corria solta a febre da “Auto-Ajuda” e do “Pensamento Motivacional”, um estudo curioso foi publicado na Scientific Magazine, e falava sobre o poder da raiva. Lembro de ter lido pequenas partes da versão do estudo em português, que consegui com alguma dificuldade (estávamos na pré-história da Internet, e coisas como Google e Youtube ainda eram sonhos de filmes de ficção científica). De memória, lembro que o estudo dizia que as pessoas costumam associar violência e raiva à competência, e que aqueles que são mais agressivos tem reputação de ser mais enérgicos, mais ousados, e portanto, mais aptos para cargos de liderança. Alguém que, pelo contrário, for civilizado e brando no trato com as pessoas, pode até ir bastante longe na carreira, mas em alguns casos, tenderá a ser visto como inadequado, sem ‘pulso firme’ para uma atribuição de chefia.
Este padrão, sem dúvida alguma, cristalizou-se nos últimos anos. Salvo raras exceções, que confirmam a regra, os livros voltados para o aprendizado de liderança no mundo corporativo e empresarial ensinam que a violência, bem dosada, é uma ferramenta poderosa para garantir a ascensão profissional. Mesmo no universo da fé cristã isso tem se tornado comum. Pastores comprometidos com as visões da assim chamada ‘Teologia da Prosperidade’ ensinam que o cristão precisa ser agressivo, violento mesmo, se quiser conquistar sua benção. Em nome de seu objetivo, lhe seria permitido até encostar Deus na parede, com palavras do tipo ‘eu não aceito’, ‘a Bíblia diz tal coisa então eu tenho direito’. E de preferência gritando, porque o berro é um sinal de autoridade. O mais triste é perceber o quanto alguns destes líderes acreditam mesmo nisso. Basta ver a forma como tratam seus assessores mais diretos, quando o povo não está olhando.
Será que este era o padrão de autoridade seguido por Jesus? O profeta Isaías, 700 anos antes de Cristo nascer, nos fala como seriam as atitudes do Messias em relação a este particular: Não clamará, nem gritará, nem fará ouvir a sua voz na praça. Não esmagará a cana quebrada, nem apagará a torcida que fumega; em verdade, promulgará o seu direito. (Isaías 42:3).
Somente alguém com um perfil de liderança sereno como o de Jesus podia ser seguro o suficiente para, num gesto de despedida, lavar os pés dos discípulos. É bom lembrar que a prática de lavar os pés de uma pessoa, hábito comum quando alguém ia visitar um amigo em casa, era feito por um escravo. Jesus não fez isso porque tivesse baixa auto-estima.
Jesus não é visto em nenhuma passagem das Escrituras gritando com pessoa alguma, a nao ser com a tempestade e os demônios. A verdadeira autoridade não é exercida no berro. Siga o modelo de Jesus, e sua forma de viver será sempre mais eficaz.
Deus te abençoe abundantemente.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Sou Evangélico, mas não voto em Marina Silva



Sou forçado a, mais uma vez, pedir licença aos habituais leitores dos escritos devocionais deste espaço para, mais uma vez, tocar no árido terreno do cotidiano que nos cerca. Faço isso por julgar extremamente necessário. Quem quiser ir adiante na leitura, entenderá.


Uma certa onda de empolgação começa a se avolumar nas fileiras evangélicas, com o anúncio da pré-candidatura de Marina Silva à presidência da República pelo Partido Verde. Muito em breve, em se confirmando a notícia, surgirão comitês “evangélicos” pró-Marina, fazendo par com a militância ambientalista, de quem a ex-ministra se transformou em uma espécie de “símbolo”. É justamente por isso que a hipótese coloca tanto terror na candidatura de Dilma Rousseff, pois, se Marina estiver mesmo no páreo, muito do seu discurso simbólico perde o encanto frente a uma candidatura que é a própria encarnação das utopias da esquerda: mulher, com passado pobre, e ainda por cima, uma filha dos “povos da floresta”, para delírio das Ongs que contam com dinheiro europeu a fundo perdido.
Marina Silva é membro da Assembléia de Deus, a maior denominação pentecostal do país. Vale relembrar que a igreja de Marina é vista como uma espécie de reserva moral da igreja pentecostal, o que não é pouco, num cenário onde pululam as Universal e Renascer em Cristo da vida. Ano que vem, a se confirmar uma candidatura de Marina, veremos cenas que já foram vistas em eleições anteriores: pastores evangélicos desesperados para figurar como “papagaio-de-pirata” da candidata em eventos públicos, panfletos sugerindo que “irmão vota em irmão”, e outras cenas já vistas na campanha de Anthony Garotinho em 2002.
É prevendo isso que, num gesto solitário de quem não está acostumado ao espírito-de-manada que volta e meia toma conta do rebanho pentecostal que aviso: sou pastor evangélico, sou pentecostal, e apesar disso, NÃO VOTO em Marina Silva para a Presidência da República em 2010.
Não voto, porque não concordo com o discurso autoritário de que se deva votar em uma candidatura simplesmente por que a mesma se apresenta como ‘evangélica’, sem que se leve em conta sua biografia e as idéias que defende.
Não voto, porque Marina Silva sempre fez par com o pior tipo de ambientalismo – o que defende o imobilismo completo dos recursos naturais, em detrimento do desenvolvimento.
Não voto, porque Marina Silva está comprometida com Organizações indigenistas que defendem a falácia do “multiculturalismo”, em nome do qual se deveria tolerar o uso de psicotrópicos e o assassinato de bebês dentro de aldeias indígenas, somente porque “é típico da cultura deles”.
Não voto, porque Marina Silva e seu pupilo Carlos Minc costumam simplificar de forma grosseira as soluções para o meio ambiente, elegendo o agronegócio e os produtores rurais como inimigos. É mais fácil falar mal de quem planta soja do que prender quem desmata ilegalmente.
Não voto, porque Marina Silva defende o decreto irresponsável da Reserva Legal, que simplesmente congela 20% das propriedades rurais do Rio Grande do Sul sob o falso pretexto de preservação, o que resultará na queda de 20% do PIB rural e em desemprego.
Não voto, porque Marina Silva é defensora do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, uma organização que invade, que rouba, que pratica cárcere privado, esbulho possessório e assassinatos, tudo isso debaixo de uma mística pretensamente religiosa.
Não voto, porque Marina Silva tem o apoio de organizações e partidos defensores do aborto e de outras bandeiras do relativismo moral.
Marina Silva não me representa. E certamente não representará a muitos que concordam com este artigo.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

A Maior Resposta



O texto que segue abaixo pertence a uma categoria que chamo de "textos de formação": São elaborações teológico-práticas a respeito da contemporaneidade na Igreja Cristã, e mesmo quem não é cristão poderá ter um interesse, mesmo que apenas sociológico. O aviso é apenas uma questão de honestidade intelectual. Se quiser prosseguir, fico grato...

Porque o povo de Deus vive, muitas vezes, momentos de crise?
Por mais que essa idéia contrarie certas teologias que andam muito na moda, a Bíblia nos informa claramente que sim, aquele que crê em Deus também está sujeito a crises. Mais do que isso, a Bíblia nos aponta que, em determinadas situações, em circunstâncias bem específicas, todo o povo de Deus pode passar por grandes lutas.
Muitas pessoas ainda hoje não entendem, porque às vezes Deus permite situações de crise, não somente na vida individual, mas também na vida da igreja. Para entender por que isso ocorre, antes é necessário compreender uma verdade: Ao longo de toda a Bíblia, Deus sempre tratou com dois entes distintos: o indivíduo e a Nação. Algumas vezes, Deus utilizou certas situações para moldar indivíduos (Abraão, Isaque, Jacó, José do Egito), e noutras vezes, conjunturas de verdadeira calamidade atingiram nações inteiras (Israel, Judá, Babilônia, Assíria).
O povo de Judá, nação de onde viria o rei Jesus, passou por diversas situações de dificuldade. Numa destas, quando o povo mais uma vez se distanciou da adoração que havia sido restaurada por Josias, a idolatria havia voltado, e o povo começou a viver em grande agonia. Foi naquele contexto selvagem que Deus enviou um profeta chamado Habacuque. O próprio nome deste profeta quer dizer muita coisa, pois significa “abraço” na língua judaica. De fato, quem não passou por momentos de aflição em que tudo o que se precisava era de um abraço? Habacuque era, para aquele povo sofrido, o abraço de Deus.
É muito interessante passear pelo livro de Habacuque, especialmente tendo em vista os questionamentos do profeta. “Até quando, Senhor, clamarei eu, e tu não escutarás?”. O profeta, vendo tanta violência, tanta iniqüidade, tanta destruição, tanta injustiça, se indigna e pergunta porque Deus não faz nada. Quem ousaria dizer que nunca fez este mesmo tipo de pergunta? A realidade que Habacuque descreve, não parece tanto com nossos dias? Gente sendo injustiçada, falta de amor, desunião?
O profeta não agüentava mais, e buscava do Senhor uma resposta. O mais interessante é que, após fazer sua oração, Habacuque se colocou em sua torre de vigia, para aguardar o que Deus responderia. Quantas vezes você age e toma providências por si mesmo, sem esperar a resposta de Deus à sua oração?
Quando Deus envia a resposta, Ele já vai avisando: “Escreve a visão, grava-a sobre tábuas, para que a possa ler até quem passa correndo”. A resposta de Deus foi profunda, impactante a ponto de transformar vidas até hoje: “Eis o soberbo! Sua alma não é reta nele. Mas o justo viverá da fé!”. De fato, trata-se de uma resposta que está gravada em muitos corações até o dia de hoje. Um monge alemão, em plena Idade Média, ao ler este versículo teve sua vida transformada, e entendeu que não eram necessárias indulgências, relíquias, imagens de santos, para chegar a Deus, mas apenas a Fé! Esta visão mudou a história da igreja para todo o sempre! Noutras palavras, o que Deus disse para o profeta foi: “Fique tranqüilo! Deixe de acreditar mais na força dos problemas do que em mim! Para de olhar para os homens, pare de olhar para as circunstâncias, pare de olhar para tudo que não dá certo em sua volta, e começa a olhar para Jesus! Olhe para cima!
É quando deixamos de ter fé em Deus, que os problemas se tornam intransponíveis e insuportáveis. É quando olhamos para as circunstâncias que deixamos de andar sobre as águas e passamos a naufragar.
É interessante ver também como são diferentes o início e o final do livro. Se no começo, temos um Habacuque em dúvida, descrente, cansado, temos no final do livro uma declaração profunda de confiança. Por quê? A miséria havia passado? A iniqüidade havia cessado no coração do povo? NÃO! As circunstâncias ainda estavam lá. O que mudou foi o coração do profeta, que deixou de olhar para os problemas que pareciam devorar seu povo, e passou a olhar para o Deus que, ao longo da história de Judá, sempre tinha lhes concedido vitória! “Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimentos; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia, eu me alegrarei no Senhor, e exultarei no Deus da minha salvação”. A raiz da palavra “alegrar”, nesta passagem, vem do hebraico gil, que significa dançar de alegria.
A alegria que Deus está prometendo pra sua vida será tão tremenda que você irá saltar de contentamento!