
“Assim falai, e assim procedei, como devendo ser julgados pela lei da liberdade” – Tiago 2: 12
O parlamento da França aprovou na semana passada a criação de uma subcomissão parlamentar que trate de propor meios legais para proibir a disseminação do uso da burca e do nihab entre mulheres muçulmanas. O nihab é aquilo que canhestramente chamamos de véu, e a burca é uma grossa vestimenta que cobra a mulher da cabeça aos pés, deixando apenas um espaço para os olhos. Após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 aos Estados Unidos, o mundo ocidental foi apresentado à vestimenta, logo estigmatizada como um símbolo de opressão e humilhação contra a mulher. Aliás, é em nome de uma alegação pretensamente humanista que o premier francês, Nicolas Sarkozy, defende a proibição completa destas vestes. “Não terão lugar na França”, disse o primeiro-ministro francês.
Todavia, o mundo civilizado surpreende-se ao ver passeatas de mulheres muçulmanas exigindo o direito de poder utilizar as vestes ditas opressoras. Para muçulmanos do ramo xiita, tais vestimentas são vistas como um dever sagrado, e – ironia das ironias – as mulheres muçulmanas recusam-se a aceitar a ‘proteção’ que a lei francesa lhes quer oferecer.
Este fato me fez lembrar de um outro incidente, este já bem nosso, no mês passado, quando a direção do Hospital de Clínicas de Porto Alegre resolveu retirar dali a capela católica, existente há 22 anos, para criar um certo “Espaço da Espiritualidade”, com a pretensão de representar todas as crenças. A direção do hospital alegou que o ‘privilégio’ a uma única religião é manifestamente inconstitucional.
Sou um pastor evangélico. Poderia aplaudir tanto a decisão francesa, por natural estranheza ao hábito da burka, quanto a da direção do Clínicas, já que não sou católico. Entretanto, vejo em ambas as decisões uma distorção absurda, proveniente de um mesmo pensamento ora dominante: o Relativismo Laico, em nome do qual se advoga que todas as crenças são iguais, ou, no mínimo, equivalentes.
É em nome deste mesmo princípio que certos escritores ateus despontam na Europa e América alegando que a religião – qualquer que seja – seria um veneno para o mundo. Como se a civilização moderna pudesse ser a mesma sem Agostinho de Hipona, Rambam, Maimônides, Averróis, Ibn In Saud, Martin Lutero, Confúcio e o maior de todos eles, Jesus de Nazaré.
A França, que legou ao mundo a defesa dos valores da “Liberdade, Igualdade, Humanidade”, quer transformar um grupo religioso em cidadãos de segunda classe, para que não possam praticar livremente as normas de sua religião. Estigmatiza os muçulmanos a exemplo do que a Europa fez, em épocas diferentes, com os judeus. A própria França já fez isso no século XX com os cristãos, que não podem mais expressar livremente sua fé nas praças locais. Aqui no Sul, o abuso é de outra natureza: Distorcer um princípio constitucional para tentar suprimir uma crença, substituindo-a por uma certa ‘religião da Natureza’, ao estilo dos místicos da chamada Nova Era.
Sou evangélico, mas não me sinto melindrado se vejo um crucifixo católico em um banco ou repartição pública. O fato de aquele objeto estar ali não constrange ninguém a ser católico, assim como os versículos bíblicos na sala da minha casa não constrangem nenhum visitante a tornar-se evangélico. E de mais a mais, querer apagar estes símbolos do espaço público equivale a tentar suprimir parte da história. Obscurantismo em nome de pretensos valores de igualdade.
O laicismo radical dos tempos modernos lembra muito os totalitarismos do passado, que sempre tentaram apagar da história as religiões, o Cristianismo em particular. Tentaram eliminar a cruz, acabaram sepultados abaixo dela. Mas no caminho, produziram montanhas de cadáveres e presos políticos por delito de opinião. Robespierre, Stalin, Pol Pot, Mao Tse Tung e Fidel Castro, além de ditadores, foram declarados inimigos de toda forma de fé.
Serve para hoje o alerta histórico do pastor luterano Martin Niemöller, um dos heróis da luta contra o Nazismo: Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista. Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata. Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse”.