“Ora, na igreja em Antioquia havia profetas e mestres, a saber: Barnabé, Simeão, chamado Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, colaço de Herodes o tetrarca, e Saulo”. (Atos dos Apóstolos, 13:1).
Olhando para os escombros da Cidade Santa devastada pelos babilônicos, o profeta Jeremias, que se cansou de tanto avisar a seu povo que se arrependesse para evitar o pior, só conseguia chorar e se perguntar: “O que fizeram com Jerusalém?”. Eu, uma formiga perto da eloqüência e de fé de Jeremias, olho para o espírito de rapina de alguns pastores de hoje e só consigo repetir a mesma oração, que me acompanha como um lamento: “Deus meu, o que estão fazendo com a tua Igreja?”. Como se precisasse mais um motivo para a mídia e a sociedade estereotiparem os cristãos evangélicos do Brasil como gente ignara, atrasada e preconceituosa, vem a público o pastor Marco Feliciano, estupidamente eleito deputado federal pelo PSC de São Paulo, e expõe em seu Twitter declarações racistas, sugerindo que os negros são gente amaldiçoada por Deus.
Não é de hoje que o pastor e hoje deputado Marco Feliciano faz das suas. Lembro que seu nome era figurinha carimbada nos congressos pentecostais dos Gideões Missionários da Última Hora. Logo, a história humilde do pastor que veio de baixo, que não era filho nem genro de nenhum medalhão influente do meio evangélico, cativou multidões. Eu mesmo, na meninice da minha fé cristã, cheguei a gostar das pregações do cara, antes que ele se transformasse nessa mistura lamentável de analfabetismo teológico, autoritarismo eclesiástico e vaidade exacerbada.
O que Feliciano disse no Twitter é um absurdo, mas lamentavelmente é um absurdo influente. Já ouvi até mesmo de pastores negros esta especulação teológica, que sugere que os negros teriam herdado a maldição imposta por Noé a seu filho Cam, ascendente bíblico dos africanos. Trata-se de um equívoco muito antigo. Quincin Duncan, no livro “Identidade Negra e Religião” relata que o sacerdote católico Juan Bautista Casas, em 1869, usava esta passagem bíblica para justificar o sistema escravocrata existente no Brasil. Muitos pastores protestantes da época lamentavelmente pensavam do mesmo modo, mas havia no Brasil pastores como Ashbel Green Simonton e Robert Kalley, que lutaram pela abolição e não toleravam que membros de suas igrejas tivessem escravos.
Não surpreende, portanto, que Feliciano reproduza essas asneiras. Alguém que, ao invés de fazer suas orações em Nome de Jesus costuma dizer “quem está te pedindo, Pai, é Marco Feliciano”, decididamente é capaz de tudo. Não, Feliciano, os negros não são amaldiçoados. Se essa é a mensagem do seu Cristianismo, com toda certeza não professamos a mesma fé.
O Cristianismo que eu conheço ensina que todas as maldições do Antigo Testamento, fossem elas contra sírios, negros ou judeus, foram substituídas pela Bênção da Nova Aliança. Jesus nos resgatou da maldição (Gl 3.13) e da lei do pecado da morte (Rm 8.2) e nos deu a liberdade, fazendo-nos filhos de Deus (Rm 8.15 e 16).
A Fé Cristã apregoada pelos apóstolos formou uma igreja multiétnica, multirracial, que tinha espaço para que um negro como Simeão e um irmão de Herodes como Manaém, fossem mestres e doutores da mesma igreja em Antioquia. A fé que eu proclamo é a da mensagem que Billy Graham pregou na Índia: “Este Jesus era um homem do oriente, que tinha uma pele mais escura que a minha e uma mensagem que vinha do Céu”. A mesma fé do bispo anglicano Desmond Tutu, do pregador Willian Seymour, do pastor Martin Luther King. A fé que fez do movimento pentecostal brasileiro a religião mais negra do Brasil.
Diante do Poder da Cruz, não há Maldição de Cam que resista.