sábado, 21 de maio de 2011

Liberdade de crença: Um passo atrás?



Pois por que há de a minha liberdade ser julgada pela consciência de outrem? (1ª Co 10:29b)

Como qualquer nação do mundo, o Brasil também gosta de, vez por outra, ressaltar perante a comunidade internacional alguns dos traços culturais que o tornam diferente do resto do mundo. Mais do que simples país do futebol, o Brasil sempre prezou ser reconhecido como uma pátria multiétnica e de absoluta liberdade religiosa. O país que na visita do papa João Paulo II em 1981 era considerado o maior país católico do mundo, é hoje também o segundo maior país protestante, o maior país pentecostal e também o maior país do espiritismo, tudo isso sem ter perdido a liderança no rebanho católico-romano. Além disso, é a pátria onde judeus e muçulmanos são vizinhos em zonas comerciais, construindo um ambiente de tolerância e absoluta liberdade religiosa. Várias vezes os presidentes da Nação referiram-se, quando em solo estrangeiro, sobre a liberdade de credo como uma das marcas mais distintivas da identidade nacional.
Mas nem sempre a liberdade religiosa foi absoluta no Brasil. A religião oficial do Império era exclusivamente a católico-romana, e o brasileiro não-católico era um cidadão de segunda classe, que não poderia ocupar cargos públicos, por exemplo. A existência de outros credos era oficialmente tolerada, desde que praticassem sua fé exclusivamente dentro de seus locais de culto, que não poderiam ter nem mesmo a aparência exterior de templo. É por esta razão que a maioria das igrejas evangélicas brasileiras, até o dia de hoje, não possui torres, sinos ou outros traços arquitetônicos semelhantes. O cristão evangélico tinha a manifestação de sua fé restrita exclusivamente ao templo, porque para a Coroa, a fé evangélica era um credo estrangeiro que atentava contra a identidade nacional. Mais tarde, no período republicano, mesmo com a separação oficial entre Igreja e Estado, a ameaça hegemonista sempre rondou de perto os evangélicos, roçando as franjas do autoritarismo. Foram inúmeras as igrejas protestantes destruídas por ordem de sacerdotes e freis no Nordeste, do que dá testemunho a literatura de cordel.
Hoje, em pleno século XXI, um novo perigo ronda a liberdade de crença num país que ama ostentar ao mundo sua tolerância religiosa. Na busca legítima por punições contra atos de violência de que são vítimas, grupos de homossexuais erram o alvo, e ao invés de propor uma legislação mais dura contra a ação de bandos que os agridem nas ruas de São Paulo e Rio – como skinheads e outras facções de corte ideológico fascista – voltam suas baterias contra as igrejas cristãs em geral, e as evangélicas em particular. Sob o cândido apelido de “Lei da Homofobia”, o Projeto de Lei 122/2006 propõe, entre outras coisas, punir com x anos de cadeia quem praticar “violência filosófica” contra um homossexual. Na prática, a simples citação do trecho bíblico de Romanos que define a prática homossexual como pecado deixaria de poder ser mencionada, transformando parte da Bíblia Sagrada, que para os cristãos é a Palavra Viva, em “letra morta”.
Diante da forte reação negativa das igrejas e da sociedade civil, a senadora Marta Suplicy, responsável pelo desarquivamento da lei no Congresso Nacional, propôs uma manhosa alteração, isentando de punição as manifestações feitas em locais de culto, restringindo a liberdade constitucional de crença e consciência a um único espaço físico.
Em que pese as boas intenções de quem imaginou, através desta proposta, defender os direitos de uma parcela da população, não há como mitigar o seu viés autoritário e anticonstitucional. Sob o pretexto de promover os direitos de um grupo da sociedade, avança-se sobre as garantias constitucionais de toda a população. Sim, pois se hoje se defende restringir a liberdade de crença de alguns por “bons” motivos, nada impede que isso ocorra de novo, no futuro, por qualquer outra razão.
Se no passado, a desculpa para circunscrever a liberdade dos evangélicos aos limites das quatro paredes dos templos era o nacionalismo, hoje é o humanismo politicamente correto que busca transformá-los novamente em cidadãos de segunda classe, sem direito pleno à expressão de suas convicções, por mais anacrônicas que pareçam a alguns. É triste que valores com mais de dois mil anos de história estejam hoje na alça de mira de um pensamento que, a pretexto de pregar a tolerância, pode fazer o Brasil retroceder numa de suas características mais marcantes: a defesa absoluta da liberdade de crença como um patrimônio dos direitos humanos.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O Meio Ambiente e a Produção: o que a Bíblia diz?



"E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra” (Gênesis 1:26).

Há diversos meses, a sociedade brasileira acompanha com profunda atenção os debates que se travam no Congresso Nacional, em torno do projeto do novo Código Florestal. De um lado, ecologistas defendendo que a legislação permaneça como está, alegando que alterações podem colocar em risco a preservação de nossos recursos naturais, a Amazônia em particular. De outro, produtores rurais alegam a necessidade de uma lei ambiental que possua menos restrições à atividade produtiva, pois estes limites, segundo eles, servem mais para inibir o potencial da competitiva agricultura brasileira do que propriamente proteger o meio ambiente. Trata-se, sem dúvida, de um debate tensionado por dois radicalismos, que precisam encontrar seu ponto de equilíbrio e convergência no Congresso Nacional - aliás, esta é a função fundamental do Legislativo em qualquer democracia.
Trata-se de um tema de importância crucial para o futuro do país, e que por isso mesmo, deveria chamar a atenção dos cristãos. Preservação ambiental e produção de alimentos seriam mesmo questões inconciliáveis? Como a fé cristã trata deste assunto? O que a Bíblia nos diz sobre esse assunto? Quem é mais importante, a ecologia ou a alimentação humana?
O livro do Gênesis nos apresenta um relato poético da criação que é prenhe de significados. Ao entregar a Adão o cuidado do Jardim do Éden, Deus confiou ao ser humano a missão e a responsabilidade de zelar sobre a criação. Nos tempos em que as igrejas não estavam preocupadas demais com a prosperidade financeira de seus membros e ainda se pregavam as doutrinas fundamentais da fé, era comum se falar do tema "Mordomia Cristã", o conceito de que somos "mordomos" de Deus, ou seja, gestores dos bens que Ele, na sua infinita bondade e sabedoria, nos legou.
Todavia, é a natureza que deve estar a serviço do homem, e não o contrário, como apregoa o “biocentrismo”, corrente científica que não identifica diferenças substanciais entre o homem e os animais. Não se trata de verdadeira ciência, mas sim de uma ideologia a serviço do radicalismo ecológico. Este pensamento se tornou a metafísica mais influente no atual movimento ambiental, que parte do pressuposto que os desequilíbrios ambientais do planeta são "antropogênicos", ou seja, gerados principalmente pelo homem, o que nem de longe é consenso na comunidade científica.
A Bíblia é profundamente ecológica. Mas não respalda o tipo de ecologia radical que vê o homem como um estorvo ao meio ambiente. Antes, pelo contrário, a fé cristã defende que a natureza pode e deve estar ao serviço do desenvolvimento da humanidade, e que por isso mesmo o uso dos recursos naturais deve ser sustentável. Ou seja, não há dicotomia entre a produção de alimentos e a preservação ambiental, como faz crer o movimento ecológico moderno.
O tipo de ecologia alarmista que hoje se manifesta, num jogo onde se misturam interesses poderosos e inconfessáveis, tenta impor uma legislação que, na prática, confisca reservas de terra de milhões de pequenos produtores, impedindo-os de ser sinal de luz e esperança num mundo tão necessitado de alimentos. O Brasil, abençoado com uma natureza pujante e uma agricultura de ponta, pode e deve olhar para a inspiração contínua do Evangelho, sendo fonte de alimento para as gerações futuras do planeta. Há quem prefira um país engessado por uma legislação ambiental profundamente restritiva, movimentos cegados para a realidade por uma ideologia que idolatra a natureza em detrimento da dignidade humana. “Não se preocupe com eles. São cegos guiando outros cegos. Ora, se um cego guia outro cego, os dois cairão num buraco” (Mateus 15: 14).
Deus vos abençoe abundantemente.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

União Homoafetiva ou Retrocesso Constitucional?



“Portanto, dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:12)

Num julgamento que mobilizou as atenções de toda a sociedade civil, o Supremo Tribunal Federal promoveu um completo redesenho do conceito de entidade familiar, conforme expresso na Constituição Federal. Pela nova decisão, os casais homossexuais passam também a ser considerados como famílias. A decisão, apesar de ser polêmica na sociedade civil, foi aprovada pela unanimidade dos membros do STF aptos a julgar a causa. Outros temas que tinham maior penetração na sociedade, como a Lei da Ficha Limpa, nem de longe tiveram a mesma apreciação da nossa Suprema Corte.
As vozes contrárias à medida, tanto no que diz respeito ao mérito quanto à forma como foi aprovada, costumam ser satanizadas, especialmente se confessem a fé evangélica ou católica. Quando a CNBB ou uma igreja evangélica se pronunciam, logo surge alguém para lembrar que o Estado é Laico, querendo dizer que os cristãos não deveriam, de forma alguma, se pronunciar sobre temas da esfera pública, numa visão bastante peculiar e distorcida de democracia.
Como cristão, compreendo que a legislação civil não tem qualquer obrigação de recepcionar nossos valores, e que o Estado tem o dever de buscar o bem-estar de todos os seus cidadãos, independente de credo, raça e orientação sexual. Na verdade, o próprio Cristo instituiu claramente o princípio da separação entre Igreja e Estado, ao dizer “daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Entretanto, observar que dez ministros do STF decidiram reinterpretar a Constituição contrariando o que está no texto, é algo extremamente preocupante. O artigo 229 da Constituição afirma taxativamente que entidade familiar é aquela formada por homem e mulher. Para contrariar o que está escrito, os senhores togados apelaram para a poesia jurídica, criando uma interpretação, na prática, inconstitucional. Em outros casos, como a Lei do Ficha Limpa, metade dos juízes preferiu o que foi ignorado agora – a letra fria da lei.
Outro fato que me chamou a atenção no voto proferido pelos ministros, foi a má vontade com aquilo que foi chamado, num tom jocoso, de “família tradicional”. O ministro Ricardo Lewandowski foi bastante claro ao opor o “modelo heterossexual,de caráter patrimonial”, à família heteroafetiva, pra ele, “baseada no afeto”, quase como se não houvesse afeto nas relações heterossexuais, e como se a própria Ação julgada não buscasse direitos patrimoniais para os casais homoafetivos. Um viés ideológico de contestação à família como “núcleo da sociedade burguesa”, à moda Mark Poster. Há que se conceder direitos? Então mude-se a lei, mas não com o STF instituindo, na prática, uma nova legislação, furtando um papel que é do Legislativo. Se é verdadeiro o ditado que diz que o direito de um termina onde começa o de outro, as conquistas de um segmento da população não poderiam avançar às custas das garantias constitucionais de todos.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Livre-se dos Porcos...


"Não dêem o que é sagrado aos cães, nem atirem suas pérolas aos porcos; caso contrário, estes as pisarão e, aqueles, voltando-se contra vocês, os despedaçarão” (Mateus 7:6).

Muitas pessoas cultivam a respeito de Jesus a imagem de que Ele era um mestre do Amor, o maior pacifista de todos os tempos. A primeira sentença é absolutamente correta, mas não a última. O pensamento que reduz Jesus à condição de grande pacifista conduz ao erro de supor que seus ensinamentos não podem ser aplicados às situações de conflito que experimentamos em nossa vida.
Felizmente, o Jesus que a Bíblia nos apresenta era, sim, Mestre do Amor e Príncipe da Paz, mas acima de tudo, era também um Mestre da Vida. E a vida, como sabemos, não possui somente momentos agradáveis. Há situações em que escapar ao conflito não é uma opção, e Ele próprio não deixou de ter controvérsias bastante duras, seja discutindo com os fariseus, seja expulsando os cambistas e mercadores do Templo, e até – ousadia das ousadias – chamando Herodes de raposa. Jesus não entrava em conflito o tempo todo, é claro. A diferença – e isso deveria ser lição para nossa vida – é que ele sabia quando um conflito era imprescindível.
Nos dias de hoje, costumamos gastar tempo e energia com pessoas que não deveriam merecer um milionésimo de segundo de nossa atenção. Reagir a toda e qualquer provocação, a qualquer tempo, é uma forma segura de desperdiçar energia, que poderia ser mais bem empregada em atividades proveitosas. É isso que Jesus quer nos dizer quando nos recomenda que “não atiremos pérolas aos porcos”. Na cultura judaica, de onde vêm as bases do Cristianismo, o “porco” representava a impureza. Ou seja: não se deve perder tempo com quem não merece esse tempo.
Aqui no Sul, usa-se muito o ditado: “Quem muito se mistura aos porcos acaba comendo farelo”, uma frase de inspiração bíblica, que relembra a passagem do Filho Pródigo, que deixou a casa do pai para terminar desejando o que os porcos comiam. É exatamente a respeito disso que Jesus nos alerta. Há pessoas que, por mais que queiram, não tem condições efetivas de desestabilizar você, a menos que você mesmo lhes dê espaço. Outros vão procurar ter conflito direto com você por inveja e até desejo de ibope, coisa que só irão obter se você lhes der atenção.
Há conflitos que, vez por outra, precisam ser comprados. Jesus combateu os fariseus porque acreditava em uma causa que valia a pena ser defendida. Mas ignorou as provocações de Pilatos. Há pessoas que não merecem a honra de um combate. Livre-se dos porcos e priorize gastar seu tempo naquilo que realmente importa.
Deus te abençoe grandiosamente.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Não somos racistas ou homofóbicos: uma atitude concreta


Externei aqui, neste blog, há alguns dias, minha indignação a respeito das declarações do deputado federal e pastor Marco Feliciano (PSC-SP), que baseado numa visão teológica tão difundida quanto errônea, afirmou que os negros carregam uma maldição hereditária. As declarações, além de teologicamente estapafúrdias, colaboram com os que pretendem expor os evangélicos do Brasil como uma desprezível horda de obscurantistas, pois isso fica bem para a agenda dos que querem aprovar leis liberticidas, como a PEC 122.

Entretanto, há ocasiões em que Deus nos convoca para a AÇÃO. Foi por isso que, aproveitando o ensejo de uma reunião da Bancada Gaúcha de Deputados Federais, apresentei á presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, deputada Manuela D'Ávila (PC do B) um documento contestando as argumentações "teológicas" do pastor-deputado, ao tempo em que expus nossos argumentos a respeito da inconstitucionalidade da PEC 122. É possível que não faça diferença no debate da CDH? Sim, mas ao menos nossa contribuição está lá, de forma oficial e efetiva. Não será por omissão que vamos permitir que o nome do Senhor seja enxovalhado.

Eis o texto que entreguei à deputada:

São Gabriel, 4 de abril de 2011


Exma. Sra. Dep. MANUELA D’ÁVILA
Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados
EM MÃOS


Senhora Deputada:


Ao cumprimentá-la, colhemos do ensejo em que Vossa Excelência se encontra em Porto Alegre para vos encaminhar o presente manifesto, na condição de pastor evangélico ligado á Igreja do Evangelho Quadrangular, uma das maiores denominações pentecostais do país, e também como presidente da Associação Cultural e Beneficente Príncipe da Paz, pessoa jurídica de direito privado, associação civil de cristãos evangélicos voltada à filantropia e defesa dos valores cristãos na cultura da sociedade civil. É revestido, portanto, desta dupla responsabilidade que vimos à Vossa Excelência externar preocupações que são compartilhadas pelos cristãos evangélicos de todo o Interior do Rio Grande do Sul.
Há alguns dias, o Congresso Nacional delibera sobre o impacto de declarações do deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), nas quais afirmou que os negros são herdeiros de uma maldição bíblica. Em sua defesa, alegou a própria afrodescendência, mas afirmou que sua concepção seria um ensino teológico comum a todos os evangélicos brasileiros.
Excelência, tal ilação consegue ser mais absurda que a primeira. É verdade que a idéia da Maldição de Cam é um erro teológico bastante difundido. Como teólogo, posso vos afirmar que este conceito foi empregado em 1826 pelo famoso sacerdote da inquisição católica, Juan Bautista de lãs Casas, como justificativa religiosa para a escravidão.
A Teologia Sistemática reconhece a existência dos conceitos de Bênção e Maldição, mas o mais correto é dizer que as maldições do Antigo Testamento são revogadas na pessoa de Jesus Cristo. que nos resgatou de toda maldição (Gl 3.13) e da lei do pecado da morte (Rm 8.2) e nos deu a liberdade, fazendo-nos filhos de Deus (Rm 8.15 e 16).
Discordamos radicalmente desta concepção equivocada do deputado Marco Feliciano. Todavia, compreendemos que por trás da repercussão dada à suas declarações, há um movimento que procura retratar os evangélicos brasileiros como um bando de detestáveis obscurantistas, de forma a minimizar nossas restrições a temas polêmicos como a PEC 122 – apelidada pela mídia de “Lei da Homofobia”, por nós definida como “Lei da Mordaça”.
Entendemos, deputada, que todo ser humano é livre para viver sua sexualidade da forma como melhor lhe aprouver, mas acreditamos que aprovar uma legislação que puna a simples manifestação de contrariedade com este tema, mesmo por razoes de crença, é um atentado inadmissível à liberdade de expressão.
É claro que repudiamos a violência contra homossexuais ou qualquer outra pessoa. Todavia, cremos que a Constituição já é suficiente para punir os que discriminam. Acreditamos que a PEC, da forma como está proposta, veda a liberdade de expressão de milhões de brasileiros, ameaçando, portanto, o Estado Democrático de Direito.
É fácil se comprometer com a liberdade de expressão quando se trata de defender pontos de vista com os quais concordamos. Todavia, nosso compromisso efetivo com a liberdade é testado diante de visões ou opiniões que discordamos frontalmente. Sendo Vossa Excelência uma parlamentar que foi eleita por um universo polifônico de pessoas – sei inclusive de muitos evangélicos que votaram em Vossa Excelencia -, apelamos para que encaminhe esta discussão para o bom senso. Afinal, cremos que os próprios homossexuais não querem a conquista de seus direitos sociais à custa da supressão do direito alheio.

Respeitosamente.


Pr. CLÁUDIO MOREIRA
Teólogo e Escritor

quinta-feira, 31 de março de 2011

Não, nós não somos racistas



“Ora, na igreja em Antioquia havia profetas e mestres, a saber: Barnabé, Simeão, chamado Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, colaço de Herodes o tetrarca, e Saulo”. (Atos dos Apóstolos, 13:1).

Olhando para os escombros da Cidade Santa devastada pelos babilônicos, o profeta Jeremias, que se cansou de tanto avisar a seu povo que se arrependesse para evitar o pior, só conseguia chorar e se perguntar: “O que fizeram com Jerusalém?”. Eu, uma formiga perto da eloqüência e de fé de Jeremias, olho para o espírito de rapina de alguns pastores de hoje e só consigo repetir a mesma oração, que me acompanha como um lamento: “Deus meu, o que estão fazendo com a tua Igreja?”. Como se precisasse mais um motivo para a mídia e a sociedade estereotiparem os cristãos evangélicos do Brasil como gente ignara, atrasada e preconceituosa, vem a público o pastor Marco Feliciano, estupidamente eleito deputado federal pelo PSC de São Paulo, e expõe em seu Twitter declarações racistas, sugerindo que os negros são gente amaldiçoada por Deus.
Não é de hoje que o pastor e hoje deputado Marco Feliciano faz das suas. Lembro que seu nome era figurinha carimbada nos congressos pentecostais dos Gideões Missionários da Última Hora. Logo, a história humilde do pastor que veio de baixo, que não era filho nem genro de nenhum medalhão influente do meio evangélico, cativou multidões. Eu mesmo, na meninice da minha fé cristã, cheguei a gostar das pregações do cara, antes que ele se transformasse nessa mistura lamentável de analfabetismo teológico, autoritarismo eclesiástico e vaidade exacerbada.
O que Feliciano disse no Twitter é um absurdo, mas lamentavelmente é um absurdo influente. Já ouvi até mesmo de pastores negros esta especulação teológica, que sugere que os negros teriam herdado a maldição imposta por Noé a seu filho Cam, ascendente bíblico dos africanos. Trata-se de um equívoco muito antigo. Quincin Duncan, no livro “Identidade Negra e Religião” relata que o sacerdote católico Juan Bautista Casas, em 1869, usava esta passagem bíblica para justificar o sistema escravocrata existente no Brasil. Muitos pastores protestantes da época lamentavelmente pensavam do mesmo modo, mas havia no Brasil pastores como Ashbel Green Simonton e Robert Kalley, que lutaram pela abolição e não toleravam que membros de suas igrejas tivessem escravos.
Não surpreende, portanto, que Feliciano reproduza essas asneiras. Alguém que, ao invés de fazer suas orações em Nome de Jesus costuma dizer “quem está te pedindo, Pai, é Marco Feliciano”, decididamente é capaz de tudo. Não, Feliciano, os negros não são amaldiçoados. Se essa é a mensagem do seu Cristianismo, com toda certeza não professamos a mesma fé.
O Cristianismo que eu conheço ensina que todas as maldições do Antigo Testamento, fossem elas contra sírios, negros ou judeus, foram substituídas pela Bênção da Nova Aliança. Jesus nos resgatou da maldição (Gl 3.13) e da lei do pecado da morte (Rm 8.2) e nos deu a liberdade, fazendo-nos filhos de Deus (Rm 8.15 e 16).
A Fé Cristã apregoada pelos apóstolos formou uma igreja multiétnica, multirracial, que tinha espaço para que um negro como Simeão e um irmão de Herodes como Manaém, fossem mestres e doutores da mesma igreja em Antioquia. A fé que eu proclamo é a da mensagem que Billy Graham pregou na Índia: “Este Jesus era um homem do oriente, que tinha uma pele mais escura que a minha e uma mensagem que vinha do Céu”. A mesma fé do bispo anglicano Desmond Tutu, do pregador Willian Seymour, do pastor Martin Luther King. A fé que fez do movimento pentecostal brasileiro a religião mais negra do Brasil.
Diante do Poder da Cruz, não há Maldição de Cam que resista.

domingo, 27 de março de 2011

Quo Vadis?


Não havendo profecia, o povo perece; porém o que guarda a lei, esse é bem-aventurado.(Provérbios 29;18)

Há uma letra de samba muito popular no país, que chegou até a ser usada por um técnico de futebol como mote motivador para a Seleção Brasileira que conquistou o pentacampeonato de 2002. Pessoalmente, me assusta que alguém possa se sentir motivado com uma canção que diz "deixa a vida me levar, vida leva eu". A letra apresenta a auto-definição do bom brasileiro como um sujeito boa praça, de bom coração, sem maiores ambições e que simplesmente não traça objetivos. Ele é literalmente levado pelos acontecimentos da vida. Não é ele quem leva a vida, é a vida que o leva.
A Bíblia Sagrada nos aponta um conselho totalmente diferente. Em Provérbios 29:18, o rei Salomão exclama que "Não havendo profecia, o povo perece". É preciso compreender que, neste versículo, a palavra "profecia" nada tem a ver com predição do futuro, conforme o entendimento popular de hoje, mas significa "direção", "orientação", "foco". Nenhuma pessoa pode viver uma vida de qualidade sem um direcionamento claro, Quem tem um alvo sabe onde quer chegar. Pra quem não sabe onde está indo, qualquer lugar serve.
O capítulo 13 do Primeiro Livro de Reis nos fala de um profeta que, nos tempos do Rei Jeroboão, foi capaz de denunciar o rei por seu culto idólatra a deuses pagãos. O rei chegou a mandar prendê-lo, mas quando estendeu a mão em direção ao profeta, sua mão ficou leprosa, tamanha era a proteção de Deus sobre aquele profeta. Tudo o que ele falava, acontecia. Quando disse que o altar iria se rachar e suas cinzas se espalharem, foi exatamente o que aconteceu. Mas tudo isso porque ele tinha um foco: "Porque assim me ordenou o Senhor, por sua palavra" (1 Rs 13:9) ou seja, ele estava sendo obediente a um Foco, uma Direção Superior que havia sido traçada para sua vida, que incluía inclusive não parar no caminho de volta nem mesmo para se alimentar.
Entretanto, outro homem, impressionado com aquele profeta, o deteve no caminho de volta e insistiu para que aceitasse comer em sua casa. O profeta acabou aceitando, e por ter se afastado do que Deus lhe dissera, foi devorado por um leão (1 Rs 13:24). Deus também deixou para nós, uma orientação expressa em sua palavra. Deixar de seguir sua orientação é uma escolha nossa, mas é certo que, quando escolhemos ignorar a vontade de Deus, não nos cabe reclamar das circunstâncias.
Por outro lado, Deus também é poderoso para corrigir uma rota equivocada. Saulo de Tarso era um fariseu empedernido, que perseguia os primeiros cristãos. Porém, a caminho de Damasco, onde pretendia prender muitos seguidores de Jesus, teve a visão do próprio Cristo, dizendo:"Quo Vadis (onde vais)?". O encontro com Jesus ressuscitado mudou o coração e as prioridades de Saulo, que passou a se chamar Paulo, o apóstolo dos gentios.
Deus quer dar uma direção para sua vida, e ela está escrita em um livro com mais de 2 mil anos de história, Talvez valha a pena ouvi-lo.
Deus te abençoe abundantemente.